Quem nunca brincou de ser rock star? #semtrabalhoinfantil

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Quem nunca sonhou em ser um rock star? E artista de TV? E os dois? Mas e quando esse sonho vira trabalho infantil? Muitas crianças adoram brincar de cantar e atuar, mas o trabalho artístico na infância pode atrapalhar o seu desenvolvimento e os estudos.

Tenho dois amigos que foram atores mirins famosos, com participações importantes na TV e no cinema. São histórias bem diferentes, uma com pausas e arrependimentos, outra com calma e segurança, mas com desfechos semelhantes: ambos acabaram cursando uma faculdade ligada à área (Cinema ou Rádio e TV) e hoje atuam no mercado. Para um deles foi muito ruim atuar na infância, ele foi arrimo de família e tinha que perder aulas e tempo livre viajando de Curitiba para SP, onde fez parte de um programa de TV infantil e depois gravou um filme infantil para o cinema. Mas ele tinha tanto talento (ganhou um Kikito ainda adolescente), que depois de adulto e formado, voltou a atuar. O outro morava em Sampa e a família não precisava do dinheiro dele, fez poupança e aproveitou as experiências para, depois de formado, montar sua própria produtora. São dois exemplos de como estes “jovens talentos” podem ser administrados. O que viveu tudo com o “peso” de trabalhar (com horário marcado, dias fixos, salário e etc) sofreu demais. O outro levou na brincadeira.

Os dois casos me surgiram porque soube que um apresentador de programa infantil (que acompanhou meus filhos) desabafou que o trabalho lhe fez perder a infância. Yudi Tamashiro, músico e ex-apresentador de programas infantis, comentou no programa A Fazenda 6 que “perdeu sua infância ao trabalhar desde cedo na TV“.

Soube deste caso no post especial da Semana do Rock do Promenino, onde um debate se iniciou e está longe de ter um consenso. Eu mesma tinha levantado este tema aqui em dois momentos: ao citar uma entrevista do apresentador João Gordo, que foi jurado em um programa de “talentos infantis” e conviveu com as frustrações de quem “só queria brincar de ser um rock star” e não conseguia – e João, que se diz um paizão, conta que os consolava, dizendo que nada havia acabado e que poderiam existir outros caminhos que não fossem o de trabalhar nessa idade.

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Em outro momento, há alguns anos, eu comentava que nós aproveitamos quando crianças trabalham para nosso entretenimento na TV ou no cinema. Consideramos o trabalho infantil errado quando vemos as imagens das crianças carvoeiras ou dos cortadores de cana, mas não nos incomodados com o excesso de cenas das crianças da novela das sete e das oito! Será? Na época eu comentava que Walcyr Carrasco fazia uma crítica ao tema (alusão ao filme Little Miss Sunshine numa passagem de sua novela Caras e Bocas) e agora a trama de sua novela Amor à Vida traz a atriz mirim Klara Castanho como pivô de uma complicada questão. Felizmente, pelo que tenho visto, ela participa pouco, o que deve significar um ritmo menos exigente de gravações do que em outras participações dela em outros trabalhos para TV. Mas elas acontecem e me fazem sempre pensar se estão sendo pesadas para sua rotina de garota de 12 anos.

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Lembro de figuras como a apresentadora de TV e cantora mirim Simony e mesmo de Angélica, que trabalharam desde tão cedo e num ritmo tão alucinado que realmente ficaram sem infância. E o que dizer de atrizes como Glória Pires e Isabela Garcia, que atuam desde antes de serem alfabetizadas? Quando a nova temporada de Malhação começou, no inicio de julho, li entrevista de Isabela dizendo que não se arrepende, mas não quer que os filhos façam o mesmo. Na hora lembrei que as meninas de Gloria, hoje atrizes (Cléo e Antônia) também tiveram uma infância vivida “longe dos holofotes”.

Qual é a sua opinião sobre isso? O que você acha que pode acontecer com o sucesso que chega já na infância? Ele pode sacrificar a educação e a formação da criança? Será que há um outro caminho, como dizia João Gordo?

 

P.S. Para ajudar a pensar sobre o tema, alguns textos podem ajudar, como a pesquisa que revela problemas do cotidiano dos artistas mirins, a reivindicação da Justiça do Trabalho pelas autorizações de trabalho infantil artístico e os limites do trabalho artístico infantil.

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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.