Arnaldo Jabor no telefone com Nelson Rodrigues: “Osama foi para o céu”

"Bin Laden será um Che islâmico" (Natan Chanda, autor de Sem Fronteira)

Hoje, no metrô, enquanto me dirigia a um compromisso, leio o o texto que republico abaixo na íntegra, porque merece ser lido inteiro e porque, de forma divertida, fala quase tudo que Gui e eu temos debatido sobre a morte do Osama. Sim, eu também, como Jabor, não queria postar sobre este imbroglio, mas não deixo de pensar no quanto ele e Natan Chanda (autor de Sem Fronteira, livro que está na minha lista de to-read) estão no caminho ao reforçar o significado desta situação e das diferentes reações a esta década da War on Terror.

E lembrei de uma situação emblemática que vivi com meu sogro. Logo que me formei (ou que voltei do Japão, já não tenho certeza), emprestei para ele a biografia do Nelson Rodrigues, O Anjo Pornográfico (escrita por Ruy Castro). Achei sinceramente que ele ia adorar e de fato ele leu com prazer – Ruy faz bem estas biografias e meu sogro viveu parte daquela época, embora fosse estudante de filosofia num seminário de padres, mas enfim, foi brasileiro naquele Brasil – e rendeu algumas conversas divertidas à mesa de almoço de domingo, falando de Mario Filho (o irmão mais velho de Nelson Rodrigues foi o responsável pelo Maracanã, sabem?), do Candinho que a mãe deles acolheu no porão de casa (o Portinari, um menino tímido que viera do interior) e muitas outras passagens da história deste jornalista. E daí, justo no jornalismo, a coisa emperrou. Porque, creiam ou não, perto os 60 anos, meu sogro, filósofo com especialização em urbanismo, um homem culto que fala vários idiomas (mesmo, de saber gramática na ponta da língua, sabem?) e que tem uma convivência sócio-cultural muito rica, se chocou quando soube que Nelson escrevia sob pseudônimos muitas das críticas positivas aos seus espetáculos. Pois com esta “bomba” o jornalismo morreu para o “Seu Manuel”. E meu sogro, que tinha me ensinado a ler jornais todo domingo, que me ensinou a saber dialogar e me posicionar diante do que lia em editoriais e colunas respeitadas, simplesmente parou de comprar jornal. Pensam que foi passageiro? Não foi, isso já faz mais de uma década e não o vi voltar a ter fé no que meus colegas de profissão escrevem.

Fico a pensar se não é justamente este “choque” que alimenta a ação ou reação nesta guerra sobre a qual fala o texto de Jabor e que, como ele relembra na brincadeira que coloca o ateu Karl Marx no céu com Nelson Rodrigues e Friedrich Nietzsche, um jogo de interesses e de reações humanas (demasiadamente humanas, e me perdoem o trocadilho) que alimentam esta necessidade de um vilão e um heroi para cada lado das histórias – sim, no plural, porque nós vemos uma história, os muçulmanos outra, os estadunidentes uma diferente… daí a ideia de que Bin Laden poderia se eternizar como o Che deles ser bem plausível sob meu ponto de vista.

E vocês, o que acham? Conseguem acreditar nas histórias, nos vídeos e fotos que noticiam fatos que podem, literalmente, mudar o mundo – ou são meio adeptos da teoria da conspiração?

O Jabor hoje foi mais que genial

Osama foi para o céu
(texto de Arnaldo Jabor publicado no jornal O Estado de São Paulo do dia 10/05/2011)

“Osama é o único assunto. Jurei que não escreveria sobre ele, mas esse homem não me sai da cabeça. Aí, resolvi telefonar para o Nelson Rodrigues para ver sua opinião. Disco o telefone preto intergaláctico, pois o Nelson me ajuda a “não” pensar com as falsas luzes do bom senso, das causas e efeitos. O telefone toca. Já ouço as risadinhas dos querubins, em volta de Nelson na nuvem de algodão no céu de estrelas de papel prateado, como nos teatros da Praça Tiradentes.

– Nelson… sou eu, o Arnaldo…

– Você me ligando, rapaz, como um telefonista de si mesmo. Achei que tinha me esquecido…

– O negócio é o seguinte, Nelson, estou besta com a morte do Osama…

– Eu também, rapaz… O sujeito acabou de entrar aqui, com guarda-costas e tudo e foi correndo para o paraíso islâmico aí do lado…

Está uma barulheira danada, com todo mundo de camisola gritando “Só Alá é grande”. Deus Pai não liga muito, mas fica vagamente irritado com esse nome; ele e Alá são iguais. Com a chegada do Osama, resolvi dar uma “espiadinha” no paraíso deles…

Rapaz, parece o baile do Bola Preta! Os terroristas são tratados a pão de ló e goiabada. O Muhammad Atta, aquele chefe suicida do 11 de Setembro, estava deitado numa cama de ouro, com odaliscas do Catumbi rebolando a dança do ventre e, quando o Osama entrou, as mil virgens pularam em cima dele, pedindo autógrafos, macacas de auditório com asinhas… É… Osama é um galã de novela… Aí embaixo também; estávamos apaixonados por ele ao avesso e não sabíamos. Eu confesso que acho ele um craque…

– Como assim? – pergunto, como nos maus diálogos.

– Porque ele criou o primeiro acontecimento do século 21. Tudo que os russos quiseram fazer, ele fez em meia hora. E mudou o Ocidente.

A América perdeu a “máscara”, estavam muito folgados na época… Agora, voltaram como caubóis, mas a vida não será a mesma. Vão continuar procurando bombas em bueiros. O Ocidente sempre teve o alvo da finalidade, do progresso. O Islã, não; quer o imóvel, a verdade incontestável. Eles não vivem na História; vivem na eternidade. Agora tem os rebeldes árabes; vamos ver se vão preferir a democracia mesmo ou os dogmas assassinos do Osama. De qualquer modo, os americanos vão ter de incluir a morte em seu dia a dia. Não poderão esquecê-la como sempre tentaram. Ficarão mais “orientais”, mais fatalistas… Isso pode até ser bom.

– Como assim? – repito na minha obtusidade.

– Rapaz, me admira você não ver isso: para eles, nós somos o Mal. Eles são o Bem. Aí, a jogada genial do Barack Obama foi ser também o Mal deles. Os cães infiéis atacaram de volta… Você disse uma frase na TV que eu até gostei: “Tudo foi cinema. Começou como Godzilla em 2001 e agora acabou como Duro de Matar… Você devia abrir uma lojinha de frases…

– Quem sou eu, Nelson?…

– E agora, todo mundo tira casquinha da vitória do Obama. Os republicanos berram: “Se não fossem nossas torturas, não achavam o homem!” Do outro lado, gemem os éticos e idiotas da objetividade: “Foi ilegal – e nossos valores?” Esses caras já nascem com uma ética pré-fabricada e não se curvam ao intempestivo da História; não aguentam o mistério do acontecimento. Não veem que o certo e o errado estão misturados. Nietzsche disse: “As convicções são cárceres”. Os intelectuais têm de aprender a “não entender”…

– Mas Nelson, politicamente o momento…

– O momento é importante, sim, porque os ditadores bilionários da Arábia adoravam que os inimigos fossem os americanos, enquanto seus povos miseráveis batiam cabeça ajoelhados no chão… Agora, os árabes acordaram…

– Nelson, você virou marxista aí no céu…

– O Marx me chama de “reacionário”, mas me ouve muito e anda chateado com as bobagens que escrevem sobre ele na academia. Eu disse para ele: “Olha, Marx, a burrice é uma força da natureza, feito o maremoto”… Ele vive repetindo isso, achou uma graça infinita… Bom sujeito, o Marx…

– É… mas a História andou para trás…

– Para com isso, rapaz, a História não existe… Ela foi uma invenção daquele alemão, o tal de Hegel que, aliás, está ali sentado numa nuvem, chorando lágrimas de esguicho numa cava depressão… O sujeito achava que a História andava pra frente e, de repente, meia dúzia de malucos, cheirando a banha de camelo, transformaram nossa vida num pesadelo humorístico. Vocês achavam que a vida era movida pelas “relações de produção”, coisa e tal, mas esqueceram que a História pode ser “intempestiva, mutante”, como escreveu o Nietzsche, que também anda por aqui, bigodudo, muito sério, e disse uma frase genial para mim: “A filosofia é um exílio entre montanhas geladas…” O Nietzsche é um craque… Sempre que posso, tomo um cafezinho com ele. Nunca saímos da barbárie, pensa bem: tivemos duas guerras mundiais num século. Os alemães queimaram judeus, os americanos derreteram 200 mil em 30 segundos em Hiroshima e Nagasaki. A razão é um luxo de franceses… Aliás, tem um francês inteligente aqui, o Baudrillard. Ele disse: “Acabou o “universal” – agora, só há o “singular” e o “mundial”…” Bom, né?

– Mas, o futuro da humanidade…

– O mundo nunca foi feliz… Esse negócio de felicidade global é invenção do comércio americano… A humanidade dando milho para os pombos na Praça de São Marcos é lero-lero…Deus não quer isso. Vai olhar a Bíblia, a Torá; é tudo no “olho por olho”… Lembra da Inquisição? Deus é violento… (estou falando baixo que Ele está ali perto, consolando o Hegel).

– Mas o ser humano…

– Rapaz… A humanidade é uma ilusão. “Tudo que é real é irracional, tudo que é irracional é real.” Se o mundo acabar, não se perde absolutamente nada…

E desligou…”

Você pode gostar também de ler:
The following two tabs change content below.
Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.

Comentários no Facebook