cidadania

Ainda tem galpões na Mooca...

Não posso dizer, de boca cheia como quem é da terceira ou quarta geração nascida e criada por aqui, que “sou da Mooca”. Mas eu adotei este bairro tradicional e peculiar de São Paulo como meu e hoje digo, com muito orgulho, que Amo a Mooca. Falo sempre desta comunidade querida que me recebeu com os braços abertos e sorrisos nas faces quando mudei para cá em fevereiro de 2005 por conta do trabalho do meu marido e que me aceita, sem perguntar de onde venho, onde cresci, interessada apenas em saber se gosto de ficar aqui.

O Mooquense é um ser à parte. Acolhe, cobra, reclama, elogia, fica feliz e fala alto quando encontra outro igual. E a gente se encontra em todo lugar porque o povo da Mooca compra aqui, come aqui, passeia aqui. Aonde quer que a gente vá na região encontra as pessoas do bairro, cumprimenta conhecidos, descobre afinidades, é como uma vida em cidade pequena – nem tão pequena, já que o bairro, apesar de aconhegante e de ser um dos menos populosos da capital, passa dos 60 mil habitantes e tem um comércio invejável.

Pensei em tudo isso quando vi, há algumas semanas, a notícia de que o sotaque da Mooca pode virar patrimônio imaterial de SP. Segundo a notícia, há um pedido no Conpresp (Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico) para transformar o jeito de falar do paulistano da Mooca, zona leste, no primeiro bem patrimonial imaterial protegido da capital, transformando o “mooquês“, a forma peculiar de falar dos moradores do bairro e que criou expressões hoje identificadas com o sotaque paulistano, como “um chops e dois pastel”, “orra, meu” e “belo”, em patrimônio.

Foi interessante ler as explicações, que remetem à chegada dos ancestrais de muitos de nós ao Brasil, sobre o sotaque, contando que a dificuldade em aplicar o plural ocorre porque o “mooquês” surge da mistura do português com o italiano, língua em que o plural é realizado com as letras “i” ou “e” no final das palavras, e não com o “s”.

O pessoal daqui tem orgulho disso – e eu confesso que fico na dúvida se acho lindo ou assustador quando ouço meus filhos, nascidos em Curitiba e criados aqui, “esquecendo” dos plurais como faziam os imigrantes, mas adoro quando eles falam cantado!

E para quem pensa que aqui só tem italianos, uma correção: “o jeito de falar na Mooca foi criado por todo mundo que veio viver aqui. Italianos, espanhóis, lituanos, nordestinos”, diz Oreste Ferri – o ex-jogador da Portuguesa e do Juventus (time que é uma paixão na Mooca), corrige quem se arriscar a contar a história de forma superficial.

Li também que o mestre e doutorando em letras pela USP, Mauro Dunder, estudou o vocabulário da região da Mooca, mas joga um balde de água gelada na história do sotaque ser preservado. Segundo ele, não há como uma língua, ou simplesmente o modo de falar, ser preservado.

“A língua é um organismo vivo, que se manifesta de maneira espontânea e se perpetua ou não de acordo com uma série de fatores externos, como o crescimento do bairro, por exemplo.”

[Mooca] Mudanças na Mooca Baixa

Mas mesmo esta preservação tem seu valor, nem que seja para efeito de documento histórico, que, segundo já ouvi alguns historiadores estudiosos da imigração italiana no sul do Brasil contarem, ajuda até na preservação da identidade cultural italiana. Da minha parte, como mooquense não nascida aqui, mas que adotou com todo amor este bairro, faço votos de que, com ou sem o “tombamento cultural” do sotaque, a Mooca consiga preservar o que tem de melhor e que sua cultura afetuosa, acolhedora e natural sobreviva à especulação imobiliária que assola o bairro nos últimos anos.

🙂

P.S. No vídeo abaixo, uma brincadeira que eu e os meninos fizemos, tem um pouco da Mooca vista do café do SESC Belenzinho, bem como uma demonstração da diferença do sotaque dos meus meninos meio mooquenses e do meu, muito paranaense. (risos)

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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.

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