Algodão transgênico traz menor impacto ao meio ambiente

“Manter o homem no campo
Dar emprego na cidade
Preservar a natureza
É uma necessidade
Algodão de cor faz isso
Porque tem compromisso
Com a prosperidade”
Texto de um cordel que enfeita uma das camisetas de algodão orgânico da CoopNatural

Em meados da década de 1990, quando o mundo começou a falar de transgênicos, era assustador pensar no assunto. Monsanto e tantos outros nomes vinham à mente do consumidor mais consciente com traços de grandes vilões de histórias em quadrinhos e reagíamos à possibilidade da presença deles em nossas vidas como crianças que temem um bicho-papão.

Felizmente, como acontece com outras tecnologias que podem causar muito mal, a transgenia não é nem vilã nem mocinha por si só e pode ter um uso benéfico para o meio ambiente. Outro dia li sobre a grife de moda sustentável do Coletivo Verde e lembrei de uma camiseta de algodão paraibano que comprei pro Gui em Recife que encontrei numa visita ao Mercado São José (um lugar encantador ao qual queria voltar sempre!). Produzida pela Cooperativa de Produção Têxtil e Afins do Algodão do Estado da Paraíba (CoopNatural), que mantém 31 cooperados (empresas e grupos de artesãos) ligados ao plantio, fiação, tecelagem e modelagem das peças. A diferença deste trabalho, que mantém uma fazenda comercial com empregados, é a agricultura agroecológica que funciona num assentamento onde vivem 150 famílias trabalhando sob orientação de técnicos da Embrapa.

A ideia parece modismo novo, mas é um conceito antigo. A palavra agroecologia foi utilizada pela primeira vez em 1928, com a publicação do termo pelo agrônomo russo Basil Bensin, mas a difusão do conceito da agroecologia coincidiu com a maior preocupação pela preservação dos recursos naturais nos anos 1960 e 70. A partir desta época os critérios de sustentabilidade nortearam as discussões sobre uma agricultura sustentável, que garantisse a preservação do solo, dos recursos hídricos, da vida silvestre e dos ecossistemas naturais, e ao mesmo tempo assegurasse a segurança alimentar.

Meu marido tem o hábito de ver Globo Rural aos domingos e foi neste programa que comecei a descobrir um novo viés para as novidades dos transgênicos e da agroecologia como preocupação de universidades, centros de pesquisa, programas e projetos de extensão em trabalhar aspectos e características técnico-científicas, assim como das suas aplicações mais sustentáveis. Meus avós paternos foram agricultores (a família de minha avó Matsuno lidou com o campo em Niigata por muitas gerações, tantas que não saberia dizer onde começou) e tiveram por muitos anos lavoura de algodão no Paraná, onde nasci e cresci, daí meu interesse pelo tema. Mas eles sofriam muito porque historicamente o setor algodoeiro é afetado por insetos-pragas que causam danos às plantas e um significativo impacto na produtividade das lavouras e até as novidades transgênicas surgirem era inevitável o uso de inseticidas químicos em pulverizações sobre a cultura pois as plantas daninhas competem com o algodão por água, luz e nutrientes, causando perdas em produtividade por “matocompetição” (termo que acho divertido, mas na realidade deve ser complicado para o produtor).

Nesta semana acontece em São Paulo o 8° Congresso Brasileiro de Algodão e uma das novidades do encontro é justamente um algodão transgênico que promete “simplificar o dia a dia do produtor, com facilidade de manejo e melhor produtividade, além de diminuir o número de aplicações de inseticidas e outros agroquímicos, beneficiando o meio ambiente”. Costumamos pensar muito no desperdício de insumos (água, energia elétrica e embalagens, por exemplo) nos lares, mas é na indústria e na agricultura que eles são realmente impactantes. Se quisermos cuidar do mundo em que vivemos, um bom começo no melhor estilo #CadaGestoConta é observar como acontece o processo produtivo do que usamos, começando por alimentos e passando por roupas e até os carros que compramos.

Não se trata mais de escolher carro bicombustível ou não, creio que já estamos amadurecidos como consumidores para pensar além e verificar se a indústria cuida dos seus funcionários (e o caso da Zara abriu os olhos de todos para isso!), como ela administra os descartes (exemplos são o McDonald’s que recicla os banners na ONG Clube das Mães do Brasil e a VW que aproveita  90% dos resíduos de pintura) e quais são os planos que está divulgando publicamente (eu sempre acompanho estas novidades empresariais no Valor). Assim sabemos se a empresa à qual aferimos lucros comprando os produtos e, indiretamente, divulgando sua marca ao usar publicamente sua produção, é ou não sustentável.

P.S. Quer ler mais sobre moda e sustentabilidade? Além do Coletivo Verde, indico a rede de Moda Verde, Irmãs GreenSer Sustentável com Estilo.

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Abrindo espaço de resposta:

Hoje recebemos um comentário pedindo para não citarmos o algodão da Paraíba num post sobre transgênicos.  O perfil BabeldasArtes Feito À Mão  dizia o seguinte:

“O algodão colorido da Paraíba NÃO É TRANSGÊNICO. Ele é resultado de um trabalho de quase 20 anos de pesquisas em melhoramento genético desenvolvido pelo Embrapa. Enquanto o transgênico é polêmico porque altera o DNA da espécie, o MELHORAMENTO GENÉTICO usa apenas métodos naturais, como cruzamento com a mesma espécie através de enxertos. 
A ilustração de uma matéria que defende o cultivo do algodão transgênico com a imagem do algodão colorido da Paraíba prejudica bastante o nosso trabalho — sobretudo prejudica a cadeia produtiva envolvida na produção como os agricultores, tecelãos e pequenos ateliês que trabalham com as plumas do algodão que já nasce colorido, sem uso de aditivos ou corantes. Quem produz algodão transgênico são as grandes corporações. Elas sim têm recursos para fazer eventos e convencer a todos de qualquer coisa mascaradas com o marketing de sustentabilidade.”
Reforço aqui que minha intenção não era dizer que o algodão paraibano é transgênico e sim comentar que há muitas novidades no cultivo deste insumo e que uma das que eu comprei foi a produzida pelo pessoal da camiseta que ilustra o post. No entanto, como sempre neste blog, o mote dos textos não é induzir o consumidor a comprar este ou aquele produto e sim convida-lo a pensar nas suas escolhas e atitudes, de forma a torna-lo mais consciente, mas sem jamais lhe tirar a liberdade de escolha, que consideramos fundamental.
Por esta razão, ao mesmo tempo em que publico a resposta no corpo do post como update, mantenho o texto que escrevi intocado, como um registro de minha visão sobre o tema.
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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.

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