Ale Rocha

“… ele estava em paz ontem, na última vez que o vi. E certamente nao ia querer que a gente sofresse por causa dele.”
Rodrigo Borges (@estadodecirco), o melhor amigo do Ale

Ale Rocha e Sam Shiraishi - flashmob SWU 2010
Nós no flashmob do SWU 2010 no Parque do Ibirapuera

A maioria das pessoas que eu conheço pessoalmente desanima frente às dificuldades. Não digo apenas que desistem, mas se sentem enfraquecidas e precisam de muito apoio externo para reagir. Um moço que insistia em usar camisa xadrez e visual grunge (anacrônico?) nos 2000, fanático por TV, que insistia em morar no interior mesmo sendo muito cosmopolita, torcia para um time de longe e decidiu ter um filho ao receber o diagnóstico de uma doença degenerativa é das pessoas que guardarei para sempre no coração como exemplo do contrário.

Ale Rocha é um dos meus exemplos de um bravo guerreiro, daquele espírito que, mesmo ciente de todas as dificuldades impostas pela vida (e neste caso não é a vida externa, as dificuldades materiais ou sociais, mas a vida que pulsa dentro do corpo humano), nunca perdeu a vontade de de viver, de aproveitar cada dia, de conhecer algo novo e, acima de tudo, de compartilhar sua visão das descobertas com sua rede de amigos.

Ale Rocha e Sam Shiraishi - lançamento do livro Poltrona em janeiro de 2010
Lançamento do livro Poltrona em janeiro de 2010

Editor do maior blog independente sobre TV no Brasil (o Poltrona, que em 2010 foi editado e publicado como livro, referência por sua visão plural, inteligente e sem vínculo com redes de TV), colunista no Yahoo!, comentarista da Record, tuiteiro seguido e amado por muitos. Nestes últimos meses ele ficou conhecido pela luta contra hipertensão pulmonar e a necessidade de um transplante, dividindo no Twitter a expectativa dos meses de espera, do caminhar lento da fila de transplantes, uma realidade nova que foi sendo vivida também por nós, amigos virtuais e torcedores do Ale nesta corrida pela vida.

Mas, neste dia em que nos despedimos dele (ele finalmente fez o transplante de pulmão na semana passada, mas não resistiu e faleceu nesta manhã), creio que é dever de pessoas que, como eu, puderam conviver “offline” com ele e sua família (o menino João, de 5 anos, a esposa Rosângela, uma das mulheres mais fortes que já conheci na vida, além de seus pais e irmãos), mostrar como Ale Rocha era cheio de vida e sabia viver bem.

Ale Rocha com esposa e filho - foto tirada num café com blogueiros do MdeMulher em agosto de 2009
Ale Rocha com esposa e filho - foto tirada num café com blogueiros do MdeMulher em agosto de 2009

Seu legado – o fortalecimento da crítica televisiva independente, a prova de que é possível fazer muito quando se trabalha bem e com seriedade, a luta para divulgar a importância da doação de órgãos – ganha ainda mais força quando vemos seu sorriso, sua força interior, sua vontade de aproveitar cada minuto. E esta vontade é o que devemos hoje (e sempre) valorizar e repetir, como bons amigos-aprendizes, aproveitando a herança que ele nos deixa e repensando todo e cada minuto das nossas vidas e vivendo-os com voracidade e sabedoria.

Empreendedorismo Digital em debate no Sebrae de Mogi das Cruzes
Empreendedorismo Digital em debate no Sebrae de Mogi das Cruzes

Tentei lembrar, mas não sei dizer quando eu conheci o Ale pela internet. Acho que eu lia o blog, conversávamos pelo Twitter, foi uma aproximação natural. Quando assumi o desafio de ser curadora da (então inovadora) rede de blogs do MdeMulher com a Bites, o nome dele foi dos primeiros que me surgiu e nos falamos pelo telefone, desvirtualizando um pouco a amizade. Semanas depois, em dezembro de 2008, fomos ao Projac para o Café com Glória Perez, encontro para o qual eu e Manoel Fernandes não quisemos arriscar levá-lo. Lembro da voz firme do Ale ao telefone comigo dizendo que estava bem e que quando eu o visse pessoalmente entenderia que deveria levá-lo. Ele dizia “estou doente, mas não pareço doente”, realidade que eu comprovaria na Campus Party de 2009, quando desvirtualizamos a amizade. Desde então nunca mais desacreditei da força do meu amigo e jamais deixei de pensar em seu nome para o que sabia ser interessante.

Na #PartyOf5 de 2009, festa do Ale (com Rodrigo), que posa entre Sam Shiraishi e Rosângela Rocha
Na #PartyOf5 de 2009, festa do Ale (com Rodrigo), que posa comigo e sua esposa Rosângela

E como sempre tem coisas que são “a cara do Ale”, quantos interesses! Minha foto favorita com ele (e tem várias aqui neste post, uma forma de prestar homenagem à sua presença neste tempo) é a que estou com ele e Rô na #PartyOf5, festa que ele e o amigo Rodrigo (@estadodecirco) fizeram no final de 2009 comemorando o blog e a banda dele. Sempre esta mescla de interesses, característica do Ale cruzar mundos nos quais vivia. Nosso último longo papo ao telefone, pouco antes de sua cirurgia, tratou do mercado de mídias sociais (tema sobre o qual palestramos juntos em dezembro de 2010, lá na sua querida Mogi das Cruzes), de TV (claro), dos portais de internet e blogs, de muita música e rock (estivemos juntos no SWU 2010), objeto do contato pois eu contava com a consultoria (e a bênção) do meu colega para alguns nomes que buscava para o projeto do MudaRock. E, por fim, em novembro publicamos aqui um texto do Ale como convidado, exemplo da sua verve e da capacidade que este “jornalista mogiano” sempre teve.

🙂

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Ale Rocha, Simone Miletic e Sam Shiraishi no carnaval do clube Juventus em fevereiro de 2010

Deixo um convite (ideia que eu já tinha e @srtabia reforçou no Twitter e a Paula Bastos, Simone Miletic e Carol Moreno já seguiram) para quem estiver emocionado que escreva um recado online para a família dele. Quem for bem amigo e quiser postar, como eu fiz, pode ser legal. Quem quiser, pode apenas comentar no post ou deixar um tuite, mas creio que este mural virtual poderá deixar um registro do que o Ale representou na sua luta nestes anos.

Outros textos: Maurício Stycer, Lele Siedschlag, Bernardo Barbosa, Rosana Hermann, Laila Sena, Paulo Serpa Nunes, Vanessa Paes Barreto, Alexandre Inagaki.

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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.

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