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Cena linda da parte étnica do Memorial Minas Vale, em BH.

Cena linda da parte étnica do Memorial Minas Vale, em BH.

Eu voltei de Minas mais afro, mesmo ciente de que sou da minoria brasileira sem sangue negro ancestral. E confesso que eu pensava sobre as formas de combater o racismo na infância sempre olhando de fora, como quem quer evitar o sentimento de segregação. Foi com a Doutora Brinquedos (personagem favorita da minha filha), a biblioteca negra que vi uns conhecidos fazerem para a filha quando nasceu e uma mudança nos livros didáticos dos meus filhos foram os insights para eu passar a olhar a questão com outros olhos.

Pausa para uma explicação: o assunto nunca foi um incômodo pessoal para mim. Por não ser negra nem ter em família alguma dificuldade na convivência interétnica, para mim tudo era normal. 

Foi a apostila de escola dos meus filhos que descobri uma nova forma de representação das minorias brasileiras. Pouca gente sabe, mas a Lei nº 10.639 de 2003 estabeleceu que a história e cultura afro-brasileira e indígena devem ser inseridas na educação do país. Há uma melhoria pois figuras importantes e valiosas da nossa história, como os Irmãos Rebouças, Aleijadinho e Machado de Assis, filhos de negros e cidadãos eméritos da história do Brasil no período colonial e imperal agora têm espaços mais destacados quando se estuda o período histórico, com ênfase na sua ancestralidade.

Apesar de alguns materiais didáticos seguirem esta linha,  ainda falta muita coisa. Não bastam os livros que carregam a informação sobre outros personagens fundamentais para a história e a formação da identidade brasileira, falta potencializar a descoberta de metodologias para aplicá-la.

Por isso tudo, gostei muito quando li sobre a ideia de afrobetizar a escola.

“Quando se trata de identidade, as escolas brasileiras são monocromáticas nos livros e nas histórias. Nossa educação não possibilita que alunos negros encontrem seu caminho e conheçam o lado verdadeiro da vida e da cultura africana presente de forma intensa no Brasil.”

afrobetizar_criancas_vanessa

Vanessa Andrade, psicóloga que iniciou um trabalho intenso de transformação social no Cantagalo, comunidade no Rio de Janeiro.

Ela conta que o Afrobetizar surgiu da necessidade de trabalhar uma pedagogia diferente, que fizesse com que as crianças descobrissem o próprio corpo através de reconhecer a beleza de ser negro e que a ideia que coloca professores negros que cursaram ou estão na universidade, realizando projetos de sucesso na vida, tem como intuito trabalhar o protagonismo negro e inverter o processo histórico que sempre colocou o negro como ser inferior em relação ao branco.

Vi muito isso nos projetos do Movimento Coletivo da Coca-Cola que visitei em comunidades cariocas graças ao #vivapositivamente, sobre os quais não me canso de falar porque são um modelo de empreendedorismo jovem que merece ser repetido no Brasil todo.

Assim surgem ações contínuas com as crianças da comunidade, que Vanessa realiza ao lado de Gessica Justino e Aruanã Garcia, que formam a equipe de professores que organizam oficinas semanais com as crianças em busca de descontruir preconceitos e fortalecer os saberes que não chegam aos pequenos por meio da escola convencional.

afrobetizar a escola corporeidade

Outra coisa que, como mãe, eu “quase invejei” por estas crianças terem – e quero que toda criança do mundo possa ter acesso a uma visão assim – é a ideia de corporeidade, mas não aquela que se esgota no movimento de dança ou de capoeira e sim a capacidade de ter consciência e acesso às possibilidades corporais.

“Não basta dizer para as crianças que é lindo ser negro. Contar quem foi Zumbi e Maria Carolina de Jesus. Essas crianças precisam viver uma experimentação positiva para que elas interiorizem esse sentimento de valorizar a própria cultura”, relata Vanessa, que reconhece a importância de transformação presente na lei, porém, vê também a necessidade de trabalhos que afetem de verdade as crianças e jovens.

 

E como fazer?

Sinceramente, não sei. Mas deixo duas dicas que aplicamos aqui em casa que são parte da naturalização das relações interétnicas e também uma forma de ativismo, presentes em textos da minha coluna na Disney Babble Brasil:

Que tal formar uma biblioteca infantil com obras que vão além da questão do preconceito e da inclusão, ajudando a formar a personalidade com uma boa consciência étnica, reforçando a identidade e cultura familiar?

Doutora Brinquedos é o começo da “cura” definitiva para os sonhos de muitas meninas! A menina negra, cujo acessório favorito é um estetoscópio rosa, se tornou um símbolo de orgulho e esperança para as mulheres negras na medicina e as filhas que elas querem inspirar.

E aí, o que você tem feito neste sentido? Conte para nós! E aproveite para passar para frente as 5 dicas abaixo:

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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.

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