Adolescência é sinônimo de ‘aborrecência’?

Esta é a pergunta que os pais de tweens (os pré-adolescentes) mais se fazem e que a gente tenta responder, com otimismo, quando finalmente a adolescência dos filhos chega.

Por aqui chegou e nesta semana celebramos os 14 anos do nosso primogênito.

Das reflexões sobre esta nova fase surgiu um texto que publiquei na Disney Babble Brasil, o canal de Disney para se comunicar com mães no qual escrevo deste seu lançamento, em outubro de 2013.

Vou lá “adolescer” e volto logo!

Ser mãe de adolescente é estar pronta para “se jogar” em aventuras como as deste parque, ambientado como um local que passou por um tsunami, com tudo fora do lugar

Ao final das minhas considerações, inclui um trecho da entrevista de Içami Tiba que eu posto abaixo porque é de grande valor para quem está nesta fase.

“Adolescente não é sinônimo de encrenca. Ele só vira aborrecente quando os pais não adolescem junto.”, ensina Içami Tiba.

Adolescência é sinônimo de ‘aborrecência’?
Içami Tiba – Depende. Quando a criança cresce e começa a manifestar vontade própria, os pais acham que ela está muito diferente. Ficam incomodados com essa nova atitude, não aceitam que o filho tenha opinião própria. Mas os pais que não se atualizam também estão sendo aborrecentes com os filhos. Para evitar esse conflito, cabe aos pais adolescer, ou seja, rejuvenescer.

O que é adolescer?
Tiba – É aprender com os filhos. Muitas vezes, o pai passa como burro porque realmente não entende de alguns assuntos, não se atualizou. Enquanto os adultos assistem a DVDs, os jovens baixam músicas nos iPods. Caso os pais se interessem pelos iPods, os filhos vão ter a maior paciência para explicar. Quer que seu filho o admire? Aprenda com ele e aplique no dia-a-dia. Ele vai admirá-lo e, ao mesmo tempo, reconhecer a autoridade e o know-how paterno em outras áreas.

O que mudou na adolescência de hoje?
Tiba – Quando eram crianças, os pais dos adolescentes desta geração comiam no almoço de domingo a asa e o pescoço do frango. O peito ficava para os adultos da casa. Hoje, como pais, eles dão o filé mignon para o filho. Querem dar tudo, acham que serão queridos se atenderem a todas as reivindicações. Os pais se sacrificam em nome do amor. O problema é que os filhos não entendem esse sacrifício como amor, e sim como direito. É obrigação da mãe amarrar o tênis do filho, o pai tem o dever de levá-lo às festas e ambos precisam arranjar um emprego para o jovem.

É uma tirania juvenil?
Tiba – Exatamente. Os pais viram serviçais. Quem aprende a ser tirano em casa vai repetir o comportamento na rua. É por isso que, na adolescência, os pais devem dar um amor que exige. Na primeira infância temos o amor dadivoso, aquele que faz tudo pelos pequenos. Depois temos o amor que ensina, em que as crianças aprendem valores, normas de conduta e cidadania. O amor exigente espera e cobra comprometimento e responsabilidade pelo que o jovem fala e faz.

Como a internet mudou a vida do adolescente?
Tiba – Fazendo que as pessoas com quem ele conversa tenham mais importância que aquelas com quem ele convive. É na rede que ele conhece pessoas, troca confissões, faz amizades. Não adianta trancar o filho no quarto para tirá-lo das ruas. O perigo está nas esquinas virtuais.

Deve-se controlar o acesso à rede?
Tiba – Não dá para usar coleiras virtuais. Um caminho é acompanhar no real o que está acontecendo no virtual. Os pais devem passar um tempo com o filho no quarto, conversar sobre esses amigos que ele faz na rede. Atendi ao caso de uma família em que o pai rastreou o e-mail de um ‘novo amigo’ do filho. Descobriu se tratar de um grupo homossexual americano que tentava seduzir o garoto. É preciso cuidado.

O primeiro Quem Ama, Educa! era para crianças. Este é para adolescentes. Em termos de educação, o que muda nessas duas fases?
Tiba – Antigamente, bastava ter poder com as crianças. Elas aceitavam o que os adultos diziam porque reconheciam neles a autoridade. A partir dos anos 80, a maioria passou a esperar dos pais o motivo para determinada ordem. O adolescente deste século aceita regras, desde que explicadas. Não adianta tentar proibir, impor. Pai que manda perde o adolescente.
”O problema é que os pais estão educando os filhos para usar drogas. Se deixam o adolescente fazer tudo o que tem vontade, como faltar à aula para ir a uma balada e dirigir sem carteira, por que ele não vai fumar maconha quando quer?’

Qual é o caminho?
Tiba – Negociar, combinar uma conseqüência e cobrar. Adolescentes gostam de cumprir combinados. Se ele tirar nota baixa e for proibido de sair no sábado, vai odiar os pais. Mas, se tiver combinado que passaria o fim de semana estudando caso fosse mal na escola, vai cumprir o trato.

O senhor divide a adolescência em etapas. Quais são elas?
Tiba – Do ponto de vista biológico, temos etapas que dão a base para o comportamento: confusão pubertária; onipotência pubertária; estirão e onipotência juvenil. Temos também duas relacionadas a estímulos sociais: a adolescência antecipada (geração tween) e a expandida (geração carona). #Q#

Todos passam por essas etapas?
Tiba – As biológicas, sim. O surgimento dos hormônios, por exemplo, é responsável pela confusão pubertária. É quando aparece o pensamento abstrato. Ele ganha uma capacidade maior de compreender o mundo, mas a cabeça ainda não incorporou a representação mental do corpo. Por isso a menina pisa no pé da mãe e o garoto derruba o copo na mesa. Quando chegam à 5a série e têm provas de matérias separadas, se perdem. Sabem que o exame é de História, mas estudam Geografia.

Os pais podem intervir de alguma forma?
Tiba – Sim, ajudando na organização. Uma intervenção é útil porque, se começar a fracassar na escola ou ser ridicularizado pelos ‘esbarrões’, o adolescente terá a auto-estima ferida. Outro período delicado é o do estirão, quando as meninas crescem para todos os lados e os meninos esticam. É a única fase da adolescência em que eles ficam mais tímidos. Vivem preocupados, vendo defeitos no corpo e podem desenvolver complexos ligados à imagem.

Em que a onipotência pubertária e a juvenil se diferenciam?
Tiba – A primeira acontece por volta dos 12 anos. O adolescente vira Deus, mas um Deus sem competência e baseado na recusa. Ele nunca quer o que o outro quer dele. É o período do enfrentamento. Já na onipotência juvenil, a partir dos 16 anos, ele se vê realmente Deus. Dono da verdade, acha que sabe tudo. É um momento difícil para os pais.

Por quê?
Tiba – Porque é quando aparecem o álcool e as drogas. Ele acha que sabe tudo e pode controlar o uso dessas substâncias. Ele não nega nada. Assume que está fumando, e os pais ficam sem argumentos para enfrentá-lo.

Os pais são culpados?
Tiba – A culpa não é só deles, mas todos têm sua parcela. O problema é que os pais estão educando os filhos para usar maconha. Se deixam o jovem fazer tudo o que tem vontade, por que ele não vai fumar maconha quando quer? Se pode sair à noite durante a semana, faltar à aula, dormir até tarde, por que não pode fumar? Na cabeça dele, é tudo igual.

O que fazer?
Tiba – Muitas vezes é preciso ter outra pessoa negociando com o filho. Só boa vontade e amor não são suficientes. Também não adianta querer controlá-lo. Na fase da onipotência juvenil, o adolescente não aceita proibições. Os pais precisam ficar alertas para descobrir que o filho está fumando maconha antes que ele passe para outras drogas.

Quais são os sinais?
Tiba – O primeiro é a queda no rendimento escolar. É inadmissível que um jovem de uma família bem informada seja reprovado. É uma falha e representa total falta de acompanhamento dos pais. Outro sinal é quando o garoto acha normal o melhor amigo fumar maconha. Se não vê problemas que alguém próximo a ele fume, é porque ele já está fumando também.

Os jovens começam a vida sexual antes dos 18 anos. O que os pais devem fazer?
Tiba – Basicamente, ensinar a não engravidar, estimulando o uso da camisinha. O grande conflito é onde os filhos devem transar.

Eles estariam estimulando a vida sexual dos filhos ao deixá-los dormir com a namorada em casa?
Tiba – Não, desde que a casa não vire um motel de alta rotatividade. Algumas regras devem ser preservadas como a duração mínima de um relacionamento antes de entrar em casa. Também não dá para deixar os lençóis sujos, a roupa jogada no chão. Deve-se guardar certa privacidade de ambas as partes.

O que significa a adolescência antecipada?
Tiba – São filhos de uma geração de pais culta, que trabalha muito e faz tudo por seus pequenos. Geralmente são filhos únicos, têm entre 8 e 12 anos e não querem mais ser criança. Copiam a roupa, o celular e o comportamento do adolescente. São consumistas e inteligentes, não gostam de brincadeiras infantis e, por discutir assuntos de adultos como tal, viram motivo de orgulho da família. Os pais devem estar alertas para evitar que seus tweens se transformem em jovens abusados, sem limites e que só valorizam o dinheiro.

E a geração carona?
Tiba – São jovens que terminam a faculdade mas continuam morando com a família porque não conseguem emprego. Há três tipos de caronista: o folgado, que continua a viver como se ainda não tivesse o diploma na mão; o explorador, que se acha o rei e exige dos pais e dos irmãos o melhor para si; e o sufocado, que se sente culpado e tenta compensar fazendo de tudo em casa. Ao alimentar esta ‘hospedagem’, os pais não estão preparando seus filhos para se tornarem verdadeiros cidadãos.

P.S. Fica a dica do livro  livro “Adolescentes: quem ama educa!”, que é um bom começo para quem quer pensar de um jeito diferente sobre esta fase de vida.

Você pode gostar também de ler:
The following two tabs change content below.
Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.

Comentários no Facebook