Uma questão é “não ter condições de levar a gestação adiante” e outra é “não desejar ter filhos”

Eu não sou a favor do aborto, sou a favor de que se evite a gravidez indesejada e sou contra o uso de métodos abortivos como uma forma de planejamento familiar.

Uma questão é “não ter condições de levar a gestação adiante” e outra é “não desejar ter filhos”.

Quem não deseja ter filhos – neste momento ou para sempre – deve poder planejar não tê-los, usando métodos contraceptivos que atendam suas escolhas (pílula diária, implante hormonal, camisinha, DIU ou laqueadura). Quem se viu vítima de uma situação que levou a uma gravidez indesejada já conta com apoio legal no Brasil.

Por isso, mais do que liberar o aborto, devemos priorizar o debate para que as políticas públicas apóiem as mulheres, de todas as idades, que estão em idade fértil, para terem apoio e estrutura nas suas escolhas e em circunstâncias extremas.

O aborto no Brasil somente não é qualificado como crime em três situações:

  • Quando a gravidez representa risco de vida para a gestante. Neste caso, o serviço público deve oferecer à paciente atenção humanizada e informações para que a mesma avalie se deseja prosseguir com a gestação. Independente se a mulher quiser continuar com a gravidez ou se optar pelo aborto, a mesma deve registrar, por escrito, a sua escolha e a ciência dos riscos a que pode se expor em sua decorrência.
  • Quando a gravidez é o resultado de um estupro. No caso das vítimas de estupro, a mulher tem direito ao imediato atendimento médico e suporte psicológico e social na rede pública de saúde. O Código Penal diz que “Não se pune o aborto praticado por médico se a gravidez resulta de estupro e o aborto é precedido de consentimento da gestante ou, quando incapaz, de seu representante legal”. Antes do aborto, a vítima recebe a medicamentos e tratamentos adequados contra doenças sexualmente transmissíveis (DSTs); ouve informações sobre os direitos legais e sobre todos os serviços sanitários disponíveis; e toma a necessária pílula do dia seguinte. Se por acaso ainda assim ela engravidar, tem o direito de abortar garantido pela lei. A gestação precisa ter até 20 semanas e o feto pesar até 500 gramas.
  • Quando o feto for anencefálico, ou seja, não possuir cérebro. Esse último item foi julgado pelo STF em 2012 e declarado como parto antecipado com fins terapêuticos. Como a doença não tem tratamento ou cura, é fatal em 100% dos casos. Porém, a gestante pode optar por dar continuidade ou não à gravidez e, nesta situação, dispensa a apresentação de autorização judicial para a realização do procedimento, informa o Instituto de Bioética, Direitos Humanos e Gênero (ANIS).

As gestantes que se enquadrarem em uma dessas três situações tem respaldo do governo para obter gratuitamente o aborto legal através do SUS (Sistema Único de Saúde).

 

 

Já que está na moda falar de #fakenews, achei valiosa esta aula do Médico Raphael Parente, Mestre em Saúde Coletiva pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Doutor em Ginecologia pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) na audiência pública sobre descriminalização do aborto no STF. Ele tem um viés político sim (basta goglar o nome para ver suas ligações com movimentos ditos de Direita), mas como bom cientista, usa fatos concretos em sua argumentação.

Destaques meus deste vídeo:

– Aborto espontâneo é muito comum e nem sempre há internação (eu sofri dois, nunca fui hospitalizada)

Dados do Sistema de Informações Hospitalares do SUS nos mostram que em 2016 houve cerca de 186 mil internações pós-aborto para realização de curetagem (procedimento para retirada de restos ovulares) e aspiração manual intrauterina (mesmo propósito, mas menos agressivo). Levando em conta que tivemos cerca de 3 milhões de partos neste mesmo ano, o número pode ser considerado pequeno (6,2%). Portanto, não há qualquer epidemia de internações por aborto. Na maioria das vezes, a mulher aborta antes do atraso menstrual e nem se dá conta.

– Mesmo com aborto legalizado, há risco, o que pouca gente admite ou fala quando defende a legalização – e olha, gente, eu sou a favor de tornar legal muita coisa (drogas, jogos, etc) porque entendo que com isso tornamos temas marginais “controláveis” pela sociedade com regras claras. Mas critico abertamente a leviandade e a manipulação de vidas humanas por interesse “comercial”. Associações citadas pelo médico (como a Frebrasgo, que impacta diretamente influenciadores de várias áreas) têm interesse sim, precisamos observar, ao ver dados e pesquisas, quem financia, a quem interessa.

#VamosDecidirJuntos

 

– Eu morei num país onde o aborto é legal, sofri um dos abortos espontâneos lá e vivi ⅔ da minha primeira gravidez lá. Digo uma coisa: é fácil virar um negócio. A clínica médica vai ganhar com o procedimento e quando recebemos a notícia ficamos vulneráveis, manipuláveis.

– A questão da eugenia é um tema para pensar. O professor cita dados da Islândia, país onde não há mais casos de Síndrome de Down. Esse dado eu ainda não verifiquei, tá? Se alguém souber detalhes para corroborar ou refutar, eu agradeço que poste nos comentários.

Eugenia é um termo criado em 1883 por Francis Galton (1822-1911), significando “bem nascido”,  que a definiu como “o estudo dos agentes sob o controle social que podem melhorar ou empobrecer as qualidades raciais das futuras gerações seja física ou mentalmente”.

 

Conheça a Lei n. 9.263/96, que trata do planejamento familiar.

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– A mim pessoalmente preocupa que jovens (ok, mulheres jovens é que podem ter filhos, né?) deixem de evitar a gravidez e usem o aborto como método de “planejamento familiar”. Já se usa a pílula do dia seguinte sem muita percepção das consequências, a própria pílula anticoncepcional é livremente usada na adolescência sem uma observação real dos problemas que pode causar ao organismo, avaliem o que a facilidade para fazer aborto pode causar numa sociedade inconsequente como a nossa…

 

– Ele traz preocupações de saúde pública, da estrutura dos hospitais no Brasil, das mortes por gravidez que acontecem por falta de médico, de salas de parto, de estrutura física. Quando se cria uma lei, temos que saber antes de onde sairá o custo para implantá-la.

Thomaz Gollop, médico e professor de Ginecologia na Faculdade de Medicina de Jundiaí, entrevistado por Drauzio Varella comenta o aborto como questão de saúde pública.

 

No vídeo, o médico cita dados de um texto que publicou no jornal O Globo, eu fui ver o conteúdo e trago parte para cá, junto com uma entrevista dele na GloboNews:

“É comum a gestante saber apenas que foi atendida por uma pessoa vestida de branco, não identificada pela graduação. As consultas realizadas pela enfermagem chegam atualmente à metade no pré-natal. As demais são feitas por médicos generalistas. Boa parte das consultas é conduzida por recém-formados contratados por organizações sociais — opção para baratear o atendimento —, sem supervisão contínua. Quem paga o preço, infelizmente com a própria vida, é a gestante de baixa renda.

Além do pré-natal, os partos feitos por obstetras na rede municipal caem ano a ano, o que coincide com o aumento da mortalidade materna. Os partos por enfermeiros subiram de menos de 18,7%, em 2015, para 23,3% em 2017. As cesarianas oscilaram para baixo no período, de 36% para 34,7%. Reportagens mostram casos trágicos de mães e bebês que morreram pela insistência no parto vaginal quando havia indicação de cesariana.

É necessário investigar relatos de médicos que dizem ser coagidos a cumprir metas baixas de cesarianas. Há penalidades para médicos e/ou organizações sociais que superam determinado percentual, e muitos não denunciam temendo retaliação. O real motivo dessas metas é a redução de custos, com mais partos sem obstetras.”

Quer outra opinião?

Veja o que diz o Dr Drauzio Varella sobre o aborto:

 

 

Sobre as fakenews que citei no começo:

Como sair das bolhas? Como distinguir notícias falsas das verdadeiras neste mundo de pós-verdades?

 

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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.