relacionamentos

collage4.jpgHá alguns dias, Lunna publicou uma entrevista que fez comigo e lá ela falava contava de uma tarde agradável que passamos juntas num café na Liberdade. Aquela tarde, marcante em muitos sentidos, me fez escrever uma pequena crônica e me fez voltar a pensar nos personagens que somos. Um deles está retratado no texto e outros eu vou deixando por aí, nos textos todos e em entrevistas nas quais sou Personagem.

Hoje no Nossa Via eu os convido a pensar nas muitas pessoas que vivem dentro de vocês e, claro, a me contar sobre elas. Passem lá!

E se quiserem ler a crônica, ei-la aqui:

A senhora era eu
Estava num café há horas com uma amiga que é nova e velha ao mesmo tempo. Sinto-me uma velha alma mudando sempre de corpo como quem troca de roupa e esta amiga é nova nesta roupa apenas.
Tantos assuntos foram tratados, um reconhecimento ora nostálgico, ora filosófico, mas felizmente nunca medíocre. Rara oportunidade de conversar sem explicar palavras, indo direto ao ponto, sem paradas para o outro respirar. Senti-me, posso dizer agora, mesmo sem ter pensado nisto no dia, como num oásis.
Quando falávamos de um projeto para o qual a amiga me convidara e que, ao que me pareceu, foi sua motivação para nosso encontro, o tema metrópole nos pegou com tamanha exaltação, passando por histórias de imigrantes – um dos meus temas mais animados sempre – que comecei a notar uma alteração na mesa ao lado.
Claro que a senhora bastante idosa e solitária que chegara há cerca de meia hora me chamara atenção. O modo familiar com que a garçonete lhe atendera o pedido, a forma como ela sorvia, no final de tarde chuvoso e agitado, sua cerveja Bohêmia, sua calva branca e suas roupas de frio, nada tinha passado desapercebido para mim. Antes dela outra senhora usando aparelho de surdez, estivera na mesma cadeira e tinha se incomodado com nossa conversa animada. No começo pensei que era o som (tenho um primo surdo que não usa aparelho de surdez por preferir o silêncio), mas aos poucos notei que ela se incomodava com nossos temas e quando nos exaltávamos nos lançava um olhar fugidio de reprovação. Como minha amiga estava de costas para ela, creio que só eu vi e guardei aqueles momentos para mim, como quem guarda um objeto precioso para si, sabendo que não tem valor para mais ninguém.
Voltemos à senhora calva. No meio de nossa conversa sobre metrópole e os imigrantes, ela se cansou de ouvir furtivamente (sim, ela nos ouvia animada há um tempo e eu notara também, mas guardara para mim o interesse de outrem por minha vida) e nos perguntou: vocês são professoras? Rimos gostoso, negando sem no entanto contar-lhe nossas profissões. Troca de impressões rápida e continuamos a conversa. A senhora calva naturalmente continuou sorvendo tanto da cerveja quanto da “aula” que os acusou de dar em pleno café.
Saímos, jantamos com meu amor, levamos minha amiga embora e até comentamos o encontro com a senhora calva outras vezes. No entanto, guardei para mim um segredo daquela senhora a quem não me apresentei. Ela era eu. Uma senhora, que em poucos minutos falou de sua origem étnica como quem fala do clima, com frieza e mágoa misturadas, a quem o conhecimento era tão importante e talvez o único amigo naquelas tardes do café no centro da metrópole. Ela era o que eu imaginei que seria. Na minha melancolia infantil e no mundo que antevia para mim na adolescência eu sempre me vi como esta senhora calva, sem família, aberta aos amigos mais inusitados e viva, apesar de tudo e, talvez, justamente por tudo que vivera.
Caminhei para isto até encontrar este que, numa bela roupagem, se mostrou claramente o companheiro de toda vida, paciente com minha incredulidade no amor eterno, na família, na estabilidade da vida. Ele me deu a vida que parece ser dos sonhos, é meu amigo de dia, meu amante à noite, pai dos meus filhos e provedor de meu lar em tempo integral e me faz feliz como não ousei sonhar porque não achei que era necessário. Mas nem ele não sabe que eu sou, ainda, a senhora calva que ele vê sempre, na mesma mesa, à mesma hora, no café da metrópole em frente ao seu escritório.

 

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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.

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