A rede nos pertence

[Alerta, este post é de 2008 – e os tais geeks da ocasião são hoje empresários da web 2.0]

Vivi um início de outubro que poderia ser chamado de geek, mas na verdade era basicamente gregário. Geek é o cara que adora tecnologia – se não compra gadgets assim que são lançados, pelo menos sabe muito deles – e, segundo li outro dia na wikipedia, gosta de sci-fi (pode um preconceito destes?) e vive no computador.  Bom, é meia-verdade. Ainda somos assim (me incluo com orgulho nesta tribo, com sci-fi e tudo), mas somos mais.

Vários geeks foram vistos no Digital Age 2.0, evento que reuniu parte da nata ligada em mídia digital nos dias 1º e 2 de outubro em São Paulo. Infelizmente não vi muita novidade, mas pude me regozijar com a presença de blogueiros que não são jornalistas (eu e Tiago Dória não contamos) credenciados como imprensa, fazendo uma cobertura just-in-time do evento que deixava os jornalistas de grandes veículos de comunicação boquiabertos. Eles viram os blogueiros fazerem o que enaltecia um documentário do Discovery Channel neste domingo: assumiam seu papel de pessoa comum e de autores da história atual. É verdade, aqui como nos EUA, há um burburinho dos profissionais de mídia sobre a ascensão da categoria de repórter-cidadão. Alguns reclamam, outros enaltecem este poder que ganhamos. No entanto, para infelicidade dos que torcem contra, acredito no que as meninas do Imezzo (Beth Saad e Daniela Bertocchi) chamaram de resumo da ópera no seu post sobre o Digital Age 2.0:

O movimento da mídia social não é uma onda passageira, não é uma nova bolha. Grande chance de ser irreversível.


Paulistas e cariocas são como republicanos e democratas? Foi o que, em certo momento, achei que a Danah Boyd quis dizer.
Foto: Renato Targa

Como um dos temas foi redes sociais – o Digital Age 2.0 era uma  conferência para debater o futuro dos negócios tendo a Internet como plataforma de relacionamento – o evento reuniu especialistas e interessados no assunto e teve grande participação da blogosfera, tanto na presença física como imprensa quanto na presença online no twitter – que é possível conferir no livestream do Blogblogs.

Hoje todos relacionam o termo rede social com Orkut, Faceboobk, Myspace, Sonico (tantas outras), mas é um termo acadêmico utilizado para se refletir sobre os movimentos sociais. Se pensarmos nas redes digitais como o estudo das relações humanas, conseguiremos ir além até mesmo no conceito de SOE (social online environments ou social networking  sites). Mas não precisamos pensar assim porque desde que surgiram redes sociais online, tudo mudou.

Vejam bem, vou chover no molhado: num site destes cada usuário pode criar um perfil de si próprio (através de descrições, fotos, listas de interesses pessoais) e construir uma rede pessoal de relacionamentos sociais

“que o conecta intencional e seletivamente com outros utilizadores pertencentes à sua rede pessoal ou outras redes pessoais e de interesses pessoais comuns, através da troca de mensagens privadas e públicas entre si”, como descrito aqui.

Nos EUA se tornaram mais populares Hi5, MySpace e Linkedln lançados em 2003, aqui o Orkut (lançado em 2004 como o Facebook, que não “pegou” ainda no Brasil mas é sucesso lá) e em resumo eles são um novo IRC (dos anos 90, que, confesso, não usei e só ouço falar agora como “história”). Minha primeira “rede social” foi o ICQ, que usava para me comunicar em 1998, onde tínhamos um mini-perfil, depois substituído pelo msn e seu spaces, primeiro blog de muitos blogueiros. As atuais ferramentas das redes sociais – aplicativos que agora o orkut começa a oferecer com generosidade e foram a grande “sacada” do facebook – são uma nova porta no espaço dinâmico de sociabilidades, convivência e compartilhamento de interesses, gostos e estilos.

E, à semelhança dos seus antecessores, enquanto espaço de convívio e partilha, o software social fomenta quer a manutenção das sociabilidades pré-existentes offline quer a expansão das sociabilidades puramente online, segundo a portuguesa OberCom.

Neste contexto, não precisa ser especialista em tecnologia para se entender porque nós, brasileiros, somos afeitos e, se não pioneiros, somos os líderes no consumo deste tipo de produto de comunicação – somos campeões mundiais no uso de comunidades, segundo algumas estatísticas de redes sociais. Mas para entender e avaliar este fenômeno, é preciso conhecer o Brasil. Senti isso ao ouvir a palestra da americana Danah Boyd no Digital Age 2.0.  Meus colegas de trabalho se encantaram com sua beleza, lucidez e cultura sobre as redes sociais, mas eu não consegui cair do mesmo modo no canto da sereia.

(Queria muito ter conversado com outras mulheres presentes para saber sua opinião, pois, como meus acompanhantes e coworkers, a maioria dos blogueiros nestes eventos ainda é do sexo masculino.)

A visão de Danah e seu discurso sobre os motivos que levam as pessoas a usar redes sociais e serem ativas nelas são estimulantes e nos levam a conexões inevitáveis. Seu discurso parecia um bem costurado texto de blog com vários hiperlinks que deixavam janelas nas quais desejávamos nos jogar para saber mais e mais. Até aí, perfeito. Não gostei das conclusões sobre o Brasil, que podem ser lidas nos comentários que encontrei num post:

– A explosão do Orkut no Brasil aconteceu porque foi a primeira rede social a chegar ao País e se concentra entre usuários do Rio de Janeiro e São Paulo. Segundo ela, essa concentração nas duas capitais acontece porque muitos pais são transferidos por conta do trabalho e cursos e os jovens não querem perder o contato dos seus amigos – explica.

– Outro fator que influencia a presença de jovens nas redes sociais, de acordo com Boyd, são as restrições impostas pela família ou por falta de mobilidade. (ela nunca viu a classe C usando orkut no McDonalds, fato mencionado na mesa moderada por Marcelo Coutinho, diretor do IBOPE Inteligência)

– Se as pessoas têm dificuldade com transporte, não têm carro, moram longe umas das outras ou os pais proíbem que saiam, a participação em mídia social aumenta. Quanto mais restrição, mais pessoas na Internet – acredita ela. (Será que isso vale no Brasil? Dos seus pares na internet, quantos são companhia constante da sua vida offline?)

É mesmo a cara do Brasil, não? Bom, eu acho que não. Mas as conclusões dela me fizeram pensar que preciso – urgente e seriamente – divulgar o que tenho lido de pesquisadores brasileiros ou brasilianistas sobre o fenômeno da rede no País. No coffee break depois da palestra da Danah eu comentava com amigos sobre coisas que li de Raquel Recuero, Daniela Bertocchi e Carol Terra (para citar apenas três – e mulheres da minha geração – brasileiras que estudam mídia digital) e eles ficaram de queixo caído ao ouvir. Falta uma conexão, um hub entre as mídias sociais e estes pesquisadores, ou apenas entre eles e quem usa as mídias sociais comercialmente? Não sei, mas adoraria encontrar as três para conversar sobre isso.

#digitalage

Sobre o mesmo evento, versões diversas:

P.S. Em 25/04/2008 o Ibope divulgou que “as comunidades on-line atingem 78,4% dos internautas brasileiros. A taxa é a maior do mundo, à frente do Japão (73,7%) e França (62,9%). Segundo o estudo, a utilização de blogs e comunidades on-line já começaram a ser praticada por diversas empresas brasileiras, focando nos consumidores que utilizam a internet regularmente. De acordo com pesquisas recentes do IBOPE, já são 40 milhões de brasileiros freqüentando a internet, onde 64% deles participam de sites de comunidades e 13% criam ou atualizam blogs.”

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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.

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