A “Negrinha” e porque devemos nos envolver nas decisões do PNBE

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Compartilhei nas redes sociais a notícia de que mais uma obra de Monteiro Lobato foi questionada por racismo e percebi um alvoroço e grande debate em torno do assunto, portanto achei que merecia um post.

Vejam se pode ser considerado apenas “suposto” o racismo:

“Negrinha” foi adquirido pelo governo federal em 2009 e 2010 por meio do PNBE. A obra, lançada em 1920, reúne 22 contos de Monteiro Lobato. A personagem principal é uma criança órfã de sete anos “mulatinha escura, de cabelos ruços e olhos assustados” e a “negrinha” sofre violência diária de sua patroa, sendo que “todo dia ela [negrinha] apanhava”.

Criticando abertamente a recomendação da obra para uso em escolas e afirmando que “o texto traz sucessivas retratações do personagem com espancamentos diários e sem explicar que aquilo você não pode fazer”, Humberto Adami, do Instituto de Advocacia Racial e Ambiental (Iara), protocolou representação na Controladoria-Geral da União (CGU) pedindo que as obras deixem de integrar o Programa Nacional Biblioteca na Escola (PNBE), que distribui livros a bibliotecas escolares do país.

O livro pode ser lido – creio que sim, por leitores aptos a compreender as nuances histórias – mas concordo que não deve ser um livro recomendado em 2012.

E aqui vale uma explicação sobre o PNBE:

“O Programa Nacional Biblioteca da Escola (PNBE), desenvolvido desde 1997, tem o objetivo de promover o acesso à cultura e o incentivo à leitura nos alunos e professores por meio da distribuição de acervos de obras de literatura, de pesquisa e de referência. O atendimento é feito em anos alternados: em um ano são contempladas as escolas de educação infantil, de ensino fundamental (anos iniciais) e de educação de jovens e adultos. Já no ano seguinte são atendidas as escolas de ensino fundamental (anos finais) e de ensino médio. Hoje, o programa atende de forma universal e gratuita todas as escolas públicas de educação básica cadastradas no Censo Escolar.”

Isso quer dizer que o PNBE guia os professores na escolha das obras que irão usar no ano escolar.

É uma proposta bastante ampla e teoricamente muito interessante, sobre a qual deveríamos inclusive nos apropriar e participar mais ativamente, indicando obras novas que apreciamos e até evitando que obras antigas sejam esquecidas.

“O programa divide-se em três ações: avaliação e distribuição de obras literárias, cujos acervos literários são compostos por textos em prosa (novelas, contos, crônica, memórias, biografias e teatro), em verso (poemas, cantigas, parlendas, adivinhas), livros de imagens e livros de história em quadrinhos; o PNBE Periódicos, que avalia e distribui periódicos de conteúdo didático e metodológico para as escolas da educação infantil, ensino fundamental e médio e o PNBE do Professor, que tem por objetivo apoiar a prática pedagógica dos professores da educação básica e também da Educação de Jovens e Adultos por meio da avaliação e distribuição de obras de cunho teórico e metodológico.”

Mas especialmente no caso de obras que incitem violência, preconceito e perpetuem a visão de submissão (feminina, étnica ou social) eu considero que não devemos apoiar que persistam como recomendadas para crianças. Se os professores realmente forem bons mediadores, acho perfeito usar Lobato e outros. Caso não sejam, sinceramente, só embaralha. Eu defendi outro dia mesmo Mark Twain e falei do Lobato no blog, mas eu concordo com quem se preocupa sobre a falta de coordenação, mediação e orientação das escolas sobre as leituras escolares. Meus filhos leram Contos de Escola de Machado de Assis em quadrinhos e ficaram chocados com o contexto e a falta de respeito aos alunos.

Não tenho convicção de que estas obras anacrônicas devam ser apresentadas às crianças, creio que podem ser usadas nas aulas de literatura do ensino médio, mas não são adequadas para o currículo infantil.

E você, o que pensa sobre o assunto? Opine!
E compartilhe a ideia de que devemos nos apoderar inclusive de decisões como a dos livros indicados pelo PNBE. Isso sim é exercitar a cidadania e assumir nosso papel para melhoria da educação brasileira.
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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.

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