A Moça do Calendário

Assistimos antes da estreia o longa dirigido por Helena Ignêz, “A Moça do Calendário”. O filme traz diversas reflexões do atual panorama social e político brasileiro, frequentemente de modo artístico e até mesmo grotesco.

Apesar de dar título à obra, vida ao pôster e aparecer logo no inicio do filme, a suposta “moça” não protagoniza a história, deixando este papel para Inácio, operário em uma oficina de automóveis e explorado frequentemente pelo patrão.

Interpretado por André Guerreiro Lopes, Inácio é um trabalhador incomum. Apesar de ser um mecânico simples e não ter uma renda muito alta, é filho de um rico fazendeiro, mas optou por um estilo de vida diferente, rendendo-lhe incompreensão por parte da família.

 

Rotineiramente, ele chega atrasado e exausto à oficina e lida com seu grotesco patrão, individuo arrogante e ambicioso. Ele claramente não tem prazer por seu trabalho e todas as sequencias neste ambiente são retratadas em preto e branco, onde o tempo simplesmente parece não ter lógica ou sentido algum. Em seus momentos de devaneio, idealiza uma relação amorosa com a moça que posa no calendário, pendurado em sua parede, quando a imagem logo adquire tons coloridos.

Na sua mente, a moça do calendário compartilha de sua luta pela justiça e igualdade de direitos. Para ele, trata-se de uma heroína libertária que o ajuda a esquecer de seus problemas na oficina, sua vida de sofrimento, seus problemas com a esposa e seu cansaço.

O pano de fundo para a trama é a sociedade brasileira, com enfoque na cidade de São Paulo, frequentemente retratada em vários momentos do longa.

A diretora buscou criar uma atmosfera de luta por um mundo melhor, entretanto, perceptivelmente utópico.

Os excessivos diálogos com coadjuvantes que não possuem absoluta importância no enredo pode confundir um pouco o expectador para compreender os reais objetivos do protagonista e de seus próximos. Entretanto, a trilha sonora escolhida se ajusta com facilidade às situações ao longo do filme e torna o roteiro mais divertido e agradável, utilizando-se sobretudo de canções nacionais mais antigas.

Apesar de herdeiro de fazendeiros, Inácio é um nítido representante da classe média baixa brasileira, algo perceptível por suas companhias, roupas e pelos lugares que frequenta. O filme muitas vezes pode parecer uma peça de teatro, realizado de modo grotesco e cômico e transmitindo uma mensagem de esperança e até mesmo amor em uma sociedade repleta de diferenças e conflitos.

Helena Ignez, Djin Sganzerla, André Guerreiro Lopes e Zuzu Leiva,

Nota da Editora:

O filme recebeu vários prêmios e menções: 50º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro – Hors Concour, 2017 / 12ª edição Femina – Festival Internacional de Cinema Feminino, 2017 – Grande Prêmio Femina Competição Nacional / 21º Festival de Cinema Luso-Brasileiro de Santa Maria da Feira, Portugal, 2018 – Prêmio do Público e Prêmio Melhor Ator André Guerreiro Lopes / 41º Festival Guarnicê de Cinema, 2018 – Prêmios de Melhor Filme Longa Nacional, Melhor Direção, Melhor Roteiro, Melhor Direção de Fotografia, Melhor Montagem, Melhor Direção de Arte e Melhor Ator.

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Daniel Benites

Estudante de jornalismo, amante eterno dá sétima arte, não passo uma semana sem frequentar às telas. Adoro viajar e ter novas experiências, toco em uma banda e espero um dia escrever um livro (ou vários).

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