cidadania / destaque / relacionamentos

Aqui falamos muito em afrobetizar e em empoderamento feminino. Mas também falamos sobre felicidade no trabalho e no direito às escolhas que devem ser ditados por nós, não pelo que a sociedade entende como certo.

Ao ler sobre o imbroglio criado em torno dessa foto das babás dos filhos da apresentadora de TV Fernanda Lima, todos esses valores entraram em choque. 
Porque sinceramente não entendo que uma pessoa gostar de ser babá seja um demérito, afinal a infância é uma parte valiosa da vida (a mais valiosa, creem alguns!) e já diz o ditado que “a mão que balança o berço é a não que governa o mundo”.

  
A diretora de redação de uma grande revista infantil me contou uma vez que uma de suas melhores amigas era ateia e descobriu que os filhos adolescentes eram evangélicos pentecostais, tudo porque a babá que os criava desde bebês era adepta fervorosa da religião. É esse é só um exemplo da influência que a convivência íntima traz para as famílias. Para muitas crianças “de condomínio-clube-escola particular” pode ser das poucas chances de ter uma janela para o mundo real, com todas as cores, sotaques, realidades, crenças e valores que fazem nossa sociedade ser o que é.

Claro que eu gostaria de ver mais negros em todos os cargos e posições sociais. Também gostaria de me ver (como oriental, que é meu lado fisicamente mais perceptível) mais na TV, por exemplo. Mas somos poucos – os orientais são 2% da população brasileira – e por isso aparecemos menos. Os negros estão inseridos na sociedade em número muito maior e aparecem mais, em todas as áreas, em especial nas regiões onde têm maior representatividade.

Ainda não consegui definir minha opinião: se achei racista ou não o tal update.

Mas continuo entendendo que tanto quanto devemos buscar essa representatividade e igualdade de direitos, devemos aceitar o livre-arbítrio, a vocação profissional e as escolhas individuais

Se uma mulher deseja ser babá, ela não é menor na estratificação social por conta disso. 

Creio que não devemos criminalizar as vocações naturais e desestimular atividades importantes e com remuneração boa porque cedemos ao preconceito de classe. 

Também defendo que é mais do que hora de reinventar esse modelo social que nos separa enquanto humanos e acreditar mais na nossa capacidade de influenciar positivamente quem está ao nosso redor. 

E para constar: tive babás minha infância toda. Negras, mulatas, brancas. As melhores pessoas, independente da cor da pele, eram as que gostavam do trabalho que faziam e acreditavam no valor do seu papel. Simples assim. 

Entenda o caso:

  

Fernanda Lima postou a foto com essa legenda:

– “Aqui em casa não tem essa de babá vestida de branco! Ó o grau das mina!”

A atriz Tatiana Godoi, que também é negra, associou a situação ao passado escravocrata do Brasil e comentou: 

– O mais triste desse país não é o fato de estarem vestidas de branco ou não, é o fato de sempre vermos pelo passado escravocrata esse tipo de foto, a sinhá branca falando: ‘olha, minhas negras não vivem na senzala, são da casa!’. Pode até tratar bem, mas infelizmente elas sempre serão as babás e a sinhá sempre será a boazinha tipo Princesa Isabel. Um dia, neste país, ainda vamos ver os negros no poder e não só subalternos como essa foto #prontofalei.

Fernanda respondeu: 

– Querida, essas meninas são filhas de uma grande amiga e não trabalhavam. Quando tive meus meninos, liguei para ela perguntando se elas queriam uma oportunidade de trabalho porque eu estava disposta a ensinar, já que saquei que, apesar de difícil, a profissão de babá pode ser muito rentável. Desde então elas convivem com a nossa família, comemos na mesma mesa, conversamos e trocamos confidências como amigas. E ainda as remunero muito bem. Sem queixas nem crises por parte de ninguém. Boa tarde pra você também. Estou meio cansada dessas discussões e interpretações de texto alucinadas da rede. E também torço pela alternância de poder. Seria maravilhoso um presidente negro. Pelo menos concordamos em algum ponto.

Tatiana concluiu: 

– Como sou uma pessoa educada e antes que os seguidores da Sinhá Fernanda comecem a me xingar (), não vão entender nunca mesmo, passando 127 anos da abolição, que vemos a mesma cena: brancos patrões e negros empregados. Tenho certeza que vocês não vão querer que esse quadro mude. Afinal, quem vai servir, né?

The following two tabs change content below.
Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.

Latest posts by Sam @samegui Shiraishi (see all)


Comentários no Facebook

SEO Powered by Platinum SEO from Techblissonline Estatísticas