A liberdade é assim, movimentação

 

Visitamos o Museu da Língua Portuguesa e usei a frase da liberdade como título do desabafo que fiz contando do passeio com Enzo, Giorgio e Himawari:

A liberdade é assim, movimentação

Li a frase acima na exposição do primeiro andar do Museu da Língua Portuguesa, um fragmento da obra prima de Guimarães Rosa. Como já era minha segunda visita ao museu, admito que deveria ter levado mais a sério o conselho do escritor.

Um espaço artístico deve ser de liberdade, ou não? Eu sempre me pergunto isto quando levo meus filhos a exposições e museus. Um passeio que eu e meu marido apreciamos e desejamos que seja natural para eles. O difícil é que para criança ser natural é ficar correndo e gritando… Como conciliar isso?

Achei muito complicado evitar que eles se movimentassem num espaço incrivelmente criativo e interessante como a mostra em homenagem à obra Grande Sertão: Veredas. Giorgio e sua amiga Himawari, de 5 anos, que estava nos acompanhando no passeio, não resistiam a esticar as mãozinhas e puxar os “panos” que reproduziam paginas da primeira versão do livro.

Quando os sacos com terra do sertão desciam junto, ai, que frisson. Eles queriam puxar todas as páginas – e eram muitas. E quase tiraram do lugar os “amontoados” de tijolos e de entulhos que formavam outros trechos lindos da obra. Enzo, aos seis anos e já completamente alfabetizado, amou as instalações que obrigavam o visitante a subir em andaimes para ver quais palavras se formavam nos escombros. E também leu algumas das frases que estavam nos espelhos d’água, escritas ao contrário e exigindo pequenos espelhos de mão para serem lidas.

Encantou-se especialmente com uma lista de palavras em japonês, de som curioso, e que seriam usadas numa obra futura do autor. A escola de educação infantil do Enzo era bilíngüe (japonês e português) e ele gosta de fazer estas brincadeiras sonoras também, o que lhe trouxe identificação e empatia.

No andar de cima do Museu fica a parte tecnológica e aí as crianças se encontraram em seu verdadeiro ambiente. Podiam correr, dançar e falar alto enquanto assistiam ao vídeo sobre a Língua Portuguesa. Patrocinado pela Rede Globo, este setor do museu pareceu-lhes mais familiar pelas imagens, pelo ritmo da apresentação delas e até pela voz dos locutores como o ator Lázaro Ramos.

Eles adoraram em especial o trecho da música Aquarela do Brasil, de Ary Barroso, apresentado nas imagens do filme Você já foi à Bahia, clássico que apresentou o personagem Zé Carioca ao mundo de Walt Disney. Tentamos ver os computadores, que comparavam palavras e mostravam influência de outros países e idiomas ao nosso português brasileiro, mas foi difícil conseguir nos aproximar das máquinas. Lá os adultos pareciam crianças. E descobri que na sala onde se pode juntar palavras numa mesa de luz, aí sim os adultos são crianças e não abrem um espacinho mísero para os pequenos verem o que se passa.

Pela segunda vez, o Enzo ficou na vontade, pôde “brincar pouco” com os radicais e formar novas palavras. Mas foi uma agradável surpresa notar que o Giorgio, que na nossa primeira visita (em julho) não tinha aproveitado muito, desta vez reconheceu muitas letras e símbolos, encantando-se também com o passeio.

Ele era O Menino Que Aprendeu a Ver, como no livro da Ruth Rocha. Ao notar a carinha de surpresa dele e da Himawari, que atualmente estudam no jardim 1, percebi que o sacrifício valeu a pena. Admito que o passeio não é mesmo para crianças não-alfabetizadas, mas também não deve ser limitado a crianças com mais de 12 anos, como sugerem algumas placas espalhadas por lá.

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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.

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