A invisibilidade da mulher madura

maduras

Logo quando foi lançada a novela “A força do querer” uma coisa me chamou muito a atenção, a atriz Maria Fernanda Cândido ter sido escalada para o papel de Joice, mãe de Ruy, interpretado pelo ator Fiuk.

Gravidez na adolescência

Fiquei meio incomodada com a escalação, pois nós duas temos a mesma idade (43 anos) e na ficção interpreta a mãe do personagem do Fiuk (27 anos), se fosse na vida real a Joice teria tido o filho aos 16 anos! Claro que sei que existe gravidez na adolescência, mas o ponto aqui é porque a mãe de um núcleo expressivo, da principal novela da maior emissora do país tem que ser tão jovem? Quem acompanha a novela sabe que a Joice tem dois filhos adultos e está em crise no seu casamento, então ela tem cenas de amor e sexo com o seu marido Eugênio.

Hoje dando uma passada pela internet, li que Malu está na faixa de risco ‘faixa de risco’ da Globo e pode ser dispensada. Recentemente a Globo cancelou os contratos fixos de nomes como Carolina Ferraz, 49, Maitê Proença, 59 e não sabe o que fazer com Malu Mader, 51.

A invisibilidade da mulher madura

Esses dias vendo o canal GNT assisti a série Humanidade [em mim] – O Valor do Feminino, uma série de mini docs com menos de 10 minutos que mostram histórias inspiradoras sobre valores do feminino que habitam em todos nós.

Obviamente trata-se de uma peça de marketing social da Nestlé, mas foi através dessa peça que eu soube do projeto da fotógrafa Silvana Garzaro sobre a beleza da mulher madura.

Certo dia Silvana estava num evento conversando amenidades com uma amiga, e uma mulher idosa que estava prestando atenção na conversa se aproximou delas e perguntou sua idade, ao ouvir a resposta esta senhora disse a seguinte frase:

Você está com 41 anos? Então, se prepare, minha filha, porque depois dos 40 a mulher fica invisível.”

No poema Campo de Flores, Carlos Drummond de Andrade conta ao mundo que ganhou um amor na idade madura. E os versos inspiraram a fotógrafa, dando o nome do poema ao projeto fotográfica que realiza com mulheres com mais de 40 anos, o principal objetivo do projeto é questionar a forma como a sociedade trata o sexo feminino na maturidade.

Essa questão da invisibilidade da mulher madura é violenta, é como se te tirassem a vinda em vida” – Silvana Garzaro

Como assim?!!?! Mulheres maduras não tem representatividade num produto como as novelas que são reconhecidamente feminino? Como é que um ator aos 50 grisalho ainda pode ser considerado galã, enquanto uma atriz com mais de 50 anos tem que desaparecer? Porque a sexualidade de uma mulher de meia idade tem que ser sublimada?

Nem castidade nem hiperssexualização

sabine-adriano

No folhetim de Glória Perez vê-se várias atrizes de meia idade que interpretam papeis de mulheres atraentes, e se compararmos  com a novela das 19:00, Pega-Pega, a vilã Sabine por exemplo, interpretada por Irene Ravache é uma mulher de meia idade que tem uma queda por homens jovens, como se uma mulher sexualmente ativa na idade dela fosse algo maligno.

Será que é tão difícil escrever histórias em que as mulheres de meia-idade são as protagonistas? Mulheres que depois de um (ou mais) relacionamento(s) tentem e queiram amar novamente? Acho que deveríamos falar mais sobre isso, também acho que deveríamos ter mais escritoras mulheres nas novelas.

Eu sou uma mulher de meia idade, que não me casei e, acreditem se quiser, ainda acredito em encontrar um amor, claro que sei que com o passar do tempo isso fica cada vez mais complicado (visto a baixa representatividade).

E pra finalizar, o poema Campo de Flores:

Campo de Flores
Carlos Drummond de Andrade

Deus me deu um amor no tempo de madureza,
quando os frutos ou não são colhidos ou sabem a verme.
Deus-ou foi talvez o Diabo-deu-me este amor maduro,
e a um e outro agradeço, pois que tenho um amor.

Pois que tenho um amor, volto aos mitos pretéritos
e outros acrescento aos que amor já criou.
Eis que eu mesmo me torno o mito mais radioso
e talhado em penumbra sou e não sou, mas sou.

Mas sou cada vez mais, eu que não me sabia
e cansado de mim julgava que era o mundo
um vácuo atormentado, um sistema de erros.
Amanhecem de novo as antigas manhãs
que não vivi jamais, pois jamais me sorriram.

Mas me sorriam sempre atrás de tua sombra
imensa e contraída como letra no muro
e só hoje presente.
Deus me deu um amor porque o mereci.
De tantos que já tive ou tiveram em mim,
o sumo se espremeu para fazer vinho
ou foi sangue, talvez, que se armou em coágulo.

E o tempo que levou uma rosa indecisa
a tirar sua cor dessas chamas extintas
era o tempo mais justo. Era tempo de terra.
Onde não há jardim, as flores nascem de um
secreto investimento em formas improváveis.

Hoje tenho um amor e me faço espaçoso
para arrecadar as alfaias de muitos
amantes desgovernados, no mundo, ou triunfantes,
e ao vê-los amorosos e transidos em torno,
o sagrado terror converto em jubilação.

Seu grão de angústia amor já me oferece
na mão esquerda. Enquanto a outra acaricia
os cabelos e a voz e o passo e a arquitetura
e o mistério que além faz os seres preciosos
à visão extasiada.

Mas, porque me tocou um amor crepuscular,
há que amar diferente. De uma grave paciência
ladrilhar minhas mãos. E talvez a ironia
tenha dilacerado a melhor doação.
Há que amar e calar.
Para fora do tempo arrasto meus despojos
e estou vivo na luz que baixa e me confunde.

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Christina Santos

Christina Santos, química, com especialidade em pesquisa e desenvolvimento de cosméticos, adora gatos e pipoca e tem grande interesse em meio ambiente, e sustentabilidade corporativa.