A geração de leitores de celulares

Neste ano de 2018, começa ingressar na universidade a geração que nasceu nos anos 2000 e isso exige alguma reflexão.

Quem são esses novos alunos que vivem em uma realidade tão diferente daquela que formou seus pais?

As circunstâncias políticas são outras, a vida social foi modificada, as tendências culturais, estéticas e até afetivas mudaram, mas houve uma revolução tecnológica.

Isso produziu uma sociedade digital, o que traz enormes implicações educacionais.

E uma coisa divide o tempo desta geração e da anterior:

A sociedade digital impactou as formas de ler e de conviver. Essa é uma geração de ‘leitores de celulares’.

Muita gente diz que essa geração profundamente familiarizada com os recursos da internet tem alguma dificuldade de discernimento sobre o que “merece” ser lido… bom, eu prefiro pensar como meu professor de Língua Portuguesa na faculdade de Comunicação da UFPR, Cristóvão Tezza, e focar no fato de que nunca se leu tanto.

O que está acontecendo de fato é a mais impressionante troca de bens culturais que já houve no mundo

 

Nem eu, leitora super voraz desde que aprendi (só aos 7 anos) a decifrar os códigos de leitura, li tanto quanto meu filho nascido em 2000. E ele prefere o celular ao leitor digital (que acabou ficando para mim), ao iPad e a vários outros recursos tecnológicos que tem disponíveis. 

Em artigo, a professora titular da Faculdade de Educação da USP, Carlota Boto, nos convida a pensar sobre as circunstâncias desta nova geração:

É preciso meditar sobre o significado dessa nova realidade.

“A leitura, como prática social, existia já na Grécia e coincide com o letramento da sociedade. Houve uma primeira revolução da leitura quando, no princípio da era cristã, o rolo foi progressivamente substituído pelo códice. As formas de ler foram, com isso, alteradas. O rolo não permitia, por exemplo, a leitura e a escrita ao mesmo tempo. O códice já admite essa possibilidade. É preciso lembrar, entretanto, que na Alta Idade Média, perdeu-se praticamente a capacidade da leitura silenciosa. Até o século VIII não havia separação das palavras. A paragrafação foi algo que aconteceu apenas no século XIV.  Com Gutenberg temos uma nova revolução da leitura. Permanece o estilo do códice, mas amplia-se ali significativamente o conjunto de exemplares que passam a circular no cenário cultural da época. Com a cultura impressa, os livros passarão a circular em maior quantidade. Progressivamente, deixam de ser um produto raro. A Reforma protestante oferecerá um cenário no qual a leitura intensiva das obras torna-se imprescindível. No século XVIII, como se sabe, os livros serão, com o Iluminismo, um poderoso instrumento de crítica social. Os livros sempre desempenharam esse papel. Mas a crítica no século XVIII surge como uma arma de ação coletiva dos intelectuais, que falavam por textos escritos…

A partir do século XIX, os livros circulam de maneira absolutamente livre pelas populações. Porém, a alfabetização era ainda diminuta. Daí o papel que os impressos terão na produção dos livros didáticos, dos compêndios escolares que se constituirão desde que se organizaram os sistemas nacionais de ensino, tanto na Europa quanto, especialmente a partir do final do século XIX, nas Américas. A escola moderna sempre lidou de maneira desconfiada com a leitura. Daí a criação de manuais didáticos, voltados não apenas para ensinar a matéria ao aluno, mas para mostrar qual matéria deveria ser ensinada ao aluno. Com as práticas de ler didaticamente organizadas, a leitura torna-se, ela mesma, uma leitura regrada. Todavia as sociedades tinham receio do poder transgressor dos conteúdos lidos. Daí o medo que tinham do gesto de ler.  Estudos demonstram que o receio por leituras subversivas persistiu no mundo ocidental até os anos 70 do século XX, quando, com a televisão, houve um decréscimo nas práticas leitoras.”

Pausa minha para reflexionar:

Isso foi o que aconteceu até nossos pais, os avós desta geração. Hoje o que vemos é uma mescla do nosso comportamento leitor com o de uma geração sem precedentes na nossa história!

E agora voltamos à especialista:

“Desde os anos 90, a computação e a internet tornam-se disponíveis para um grande público, alterando as maneiras de acessar o conhecimento. Com a escrita no computador, um novo estilo de ler é inaugurado. Especialistas como Roger Chartier dizem que o impacto da leitura na tela é absolutamente inovador, assemelhando-se à revolução que existiu quando se passou do rolo ao códice; mais impactante, portanto, do que a revolução de Gutenberg. Teria havido, nesse sentido, com o ingresso dos computadores à cena cultural, uma transformação maior do que aquela que representou o advento da tipografia. O códice impresso não era estruturalmente diferente do códice manuscrito. Ou seja: a forma de ler o livro não era alterada, como fora quando se passou do rolo ao códice e como seria quando se passasse do livro em códice ao texto no computador. Por ser assim, a leitura no computador foi absolutamente revolucionária.

Por sua vez, na contramão da tendência de seu tempo, de alguma maneira, a universidade solicita dessa juventude que lê pelo computador a leitura no livro impresso ou mesmo no xerox, a leitura – digamos – mais tradicional. E tem mesmo de fazer isso. Cada vez mais, entretanto, as sessões de fotocópias das faculdades têm menos trabalho – por assim dizer. Muitos professores já disponibilizam textos digitalizados. Será que esses textos são mais acessados do que aqueles que vêm por outros suportes? E o que dizer do conteúdo desses textos? Será que lemos o mesmo texto quando o acessamos pelo computador e quando o lemos a partir de um livro? Seria o mesmo texto que é lido? De todo modo, essa forma de leitura – que cada vez mais invade a universidade – leva a que repensemos obrigatoriamente nossas práticas em sala de aula. Fazemos ainda com que os alunos imprimam o que leram? Como trabalhar o conteúdo do que é lido sem que ele possa ser objeto de um registro que acompanhe essa leitura? Para levar o texto para classe, se não o imprimirem, em tese, todos precisariam ter em sala de aula um computador. Essa ainda não é a realidade de muitos dos cursos da universidade. Nesse sentido, a leitura acaba sendo prejudicada. Os alunos parecem ler menos porque leem de outra maneira.”

Acresce-se a isso a questão da internet. O contato com uma biblioteca sem fronteiras parece absolutamente sedutor. Aparentemente constam dali todos os conteúdos culturais que podem interessar à juventude. A internet altera os padrões de apropriação do texto. É claro que todos nós também lemos na tela. Acontece que há uma geração nova que está desaprendendo como se lê fora da tela. O uso que a juventude faz da leitura parece ser alguma coisa ainda desconhecida das gerações mais velhas. Será que nós sabemos fazer a leitura de como essa juventude lê? Eis a questão.

Eu evoco o mestre Tezza:

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Contrariando apocalípticos como Andrew Keen, para o escritor brasileiro mais premiado de 2008,

a web 2.0 não é pirataria, é democratização cultural

A lucidez de Tezza me deixou contente, como podem ler no trecho que publico abaixo:

“Baixar um livro é infinitamente mais fácil que baixar um filme e mesmo uma música, mas a leitura digital de um texto longo no monitor é desconfortável – é isso, até aqui, que vem salvando os escritores. Com a chegada dos livros digitais, isso pode mudar. Até porque, parece que não há formato de arquivo, por mais exclusivo que seja, que não acabe convertido em outro de uso corrente”, observa.

“Bem, sendo realista, praticamente todos os escritores de ficção e de poesia sempre foram obrigados a ter outra fonte de renda, porque nessa área ninguém vive de direitos autorais no Brasil, mas mesmo assim uma popularização do download de livros seria catastrófica para quem escreve, supondo-se de fato que o livro digital suplantaria significativamente o livro de papel. Tudo vai depender desta relação entre o livro virtual e o livro de papel. Sinceramente, não sei. E acho que ninguém sabe dizer, hoje, o que vai acontecer nessa área”, opina.

“Sim, acho que (o livro de papel e o eletrônico) vão conviver perfeitamente. Não imagino que o livro eletrônico vá suprimir o velho e bom livro de papel, cuja praticidade é imbatível”, defende.

E você, se for bom leitor como eu, me conte: você deixou de comprar livros porque pode baixar as obras em pdf ou está super encantando com a chegada do leitor digital?

Eu demorei, mas estou cada dia mais leitora digital do que de papel!

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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.