A garota na névoa

Não é apenas o título de “A garota na névoa”, mais recente longa italiano de Donato Carrisi, que remete a um ambiente de desconhecimento e opacidade. Do início ao fim as cenas são mostradas com forte preferência por tons mais escuros e sombrios, compondo um cenário de suspense, tristeza e até mesmo medo do que está por vir.

O foco principal da trama é o desaparecimento de Anna Lou, uma jovem de 16 anos, logo na cena inicial do filme. Tudo indica sequestro ou até mesmo assassinato, de modo a colocar o agente Vogel como principal líder das investigações. No entanto, não se trata de um filme policial com uma simples trama de suspense, mas sim um drama profundo e muitas vezes assustador, com reviravoltas surpreendentes do início ao fim.

Vogel, interpretado por Toni Servillo, é um investigador cauteloso e transparente. Entretanto, seus métodos não são apenas não convencionais, mas também frequentemente imorais, acusando inocentes e manipulando a mídia para avançar no caso. Vogel chega a acusar um professor, Loris Martini (vivido por Alessio Boni) como o grande culpado do ocorrido, frente a provas consideráveis, mas que estão longe de serem efetivamente incriminadoras. A imprensa local logo se debruça sobre o professor e exige explicações de sua parte.

Os habitantes da cidade se mostram absolutamente favoráveis à prisão imediata e sem julgamento do professor por seus supostos atos. Tema não inédito no cinema, o enredo reflete um fenômeno muito próprio das comunidades humanas, a busca pelo ódio a algo ou alguém como meio de escapismo. De súbito, após um incidente como o sequestro de uma jovem, os cidadãos amigáveis deixam de ser acolhedores e passam a desconfiar uns dos outros, gerando intrigas. Cada vez mais com a certeza de que o professor, recém-chegado na cidade, é o culpado do crime, ele rapidamente se torna o alvo, seja do espetáculo midiático, da especulação das autoridades ou apenas do deleite dos cidadãos em encontrar um culpado.

Este não é, entretanto, o foco principal do filme de Carrisi, que se preocupa mais com a construção do psicológico do detetive Vogel e do professor Martini, alternando o centro da trama em cada um dos personagens. Ainda que seja absolutamente possível estabelecer uma relação de empatia com Martini, aparentemente sincero e generoso, vítima da situação, em nenhum momento ao longo da obra é possível ter plena certeza de que ele seja inocente. O mesmo pode ser dito de Vogel, que se mostra humano e compreensivo em certos momentos e totalmente frio em outros, levando o espectador até mesmo a acreditar em certos momentos que ele esteve envolvido no sequestro.

Destaca-se como um thriller de suspense sem um vilão próprio ou precisamente determinado. O desdobramento das características dos dois protagonistas, bem como dos que os rodeiam, somado a uma trilha sonora melancólica, constrói um ambiente instigante e envolvente para o público, aumentando as expectativas quanto a um possível desfecho surpreendente em meio à névoa de um pacato vilarejo, cujos próprios habitantes pouco parecem saber sobre seus mais próximos.

Nota da Editora:

O escritor, roteirista e jornalista italiano, Donato Carrisi, merece um perfil que ajuda a contextualizar a obra. Roteirista de televisão e filmes, é formado em direito, depois se especializou em criminologia e comportamentologia. Já teve seus livros vendidos em cerca de trinta países, e no Brasil é publicado pela Editora Record. Em seu romance de estréia, O Aliciador, ele arrebatou a crítica e o público num thriller que, disseram os críticos na época, reinventa as regras do jogo, pois “é uma história que não dá trégua, que explora a zona nebulosa entre o bem e o mal até descobrir seu último segredo, seu menor sussurro”.

É esse universo e este roteiro que A garota da névoa parece ter.

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Daniel Benites

Estudante de jornalismo, amante eterno dá sétima arte, não passo uma semana sem frequentar às telas. Adoro viajar e ter novas experiências, toco em uma banda e espero um dia escrever um livro (ou vários).

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