A culpa não é dos hormônios. É da imaturidade do cérebro adolescente!


“Desejara que não houvesse idade entre 16 e 23 anos, ou que a mocidade dormisse todo esse tempo.”
William Shakespeare

Na peça Conto de inverno, escrita entre 1610 e 1611, o personagem denomina os jovens de “cérebros ferventes”. 

Sua reação à rebeldia típica dessa fase da vida revela que nada mudou ao longo do tempo. Os adultos, em geral, sentem muita dificuldade de compreender o comportamento dos adolescentes.

E nenhum pai, mãe, avô, tio ou professor está só nesta dificuldade. Em parte porque somos também – pelo menos os pais até entrar nos “enta” – seres em processo de amadurecimento também. E principalmente porque como humanidade, apesar das desconfianças específicas do Bardo, estamos engatinhando nas descobertas científicas sobre o funcionamento da parte mais importante do nosso corpo: o cérebro.

Por conta das limitações tecnológicas, só no século XXI a ciência começou a pesquisar de fato características que podem nos tirar do achismo – como aquele que creditou aos hormônios todos os comportamentos equivocados dos adolescentes.  

Um grande projeto nessa área de pesquisa foi conduzido pelo Instituto Nacional de Saúde Mental dos Estados Unidos, que conta com cerca de 8 mil imagens de 2 mil pessoas – entre crianças, adolescentes e adultos –, oferecendo uma nova perspectiva sobre o desenvolvimento do cérebro.

“Dez anos atrás, sabíamos pouco sobre o cérebro adolescente. Avançamos muito graças às novas tecnologias de imagem, feitas por ressonância magnética.”
Sarah-Jayne Blakemore, neurocientista na Universidade de Londres

As novas tecnologias de imagem mostram que a última parte do cérebro a amadurecer – o córtex pré-frontal – é justamente a região onde se processam comportamentos tipicamente de adultos, como capacidade de planejamento, concentração, inibição de impulsos e empatia.

Assisti uma palestra muito elucidativa sobre o tema na qual o psiquiatra Daniel Barros (colunista do Bem Estar e do Estadão), ao conversar com pais de adolescentes sobre as dificuldades no relacionamento de pais e filhos, citou algumas novidades nos estudos do amadurecimento cerebral nesta fase. Voltei ansiosa por saber mais e encontrei referências interessantes.

Reuni aqui surpreendentes descobertas científicas sobre o cérebro adolescente:

– ao contrário do que se acreditava no século XX, a maturação do cérebro humano segue pela adolescência e pode continuar até a idade adulta.

– a massa cinzenta diminui ao longo da adolescência. Essa diminuição, no entanto, não representa uma perda de neurônios, cujo número, em geral, pouco muda. Ela ocorre devido a uma grande perda de sinapses (conexões entre os neurônios mediadas por substâncias químicas chamadas de neurotransmissores).

– as sinapses começam a aumentar durante a gestação e atingem o pico aos 6 meses de vida do bebê. Na adolescência, o quadro muda. Sinapses usadas com frequência são reforçadas, enquanto as que deixam de ser usadas são perdidas, de modo que as opções feitas nessa fase da vida ajudarão a formar o cérebro do adulto.
“No começo da adolescência, há um grande número de sinapses, mas, quando se inicia a transição para a fase adulta, ocorre uma morte programada de sinapses, que refina as conexões. Essa perda de algumas sinapses – e consolidação de outras – acontece de acordo com o uso.”

Cláudia Berlim de Mello, neuropsicóloga do Centro Paulista de Neuropsicologia
– a maturação do cérebro não se dá de maneira homogênea, mas em ritmos diferentes em cada região. 
– As novas tecnologias de imagem mostram que a última parte do cérebro a amadurecer – o córtex pré-frontal – é justamente a região onde se processam comportamentos tipicamente de adultos, como capacidade de planejamento, concentração, inibição de impulsos e empatia. Ao mesmo tempo que o corte do excesso de sinapses aperfeiçoa o funcionamento dessa importante área, as novas e melhoradas fibras com mielina permitem que diferentes partes dentro do pré-frontal se comuniquem melhor. 
– Se, por um lado, a maturidade emocional do adolescente oscila, é nessa fase também que ele passa a possuir ferramentas que o preparam para a vida adulta. Surge a capacidade de tomar decisões, julgar e planejar. No córtex pré-frontal, uma região chamada córtex orbitofrontal (localizada atrás dos olhos) é a última a amadurecer e promove as capacidades de usar emoções para nortear decisões e de criar empatia pelos outros – características fundamentais da vida adulta.
– Com o amadurecimento do córtex pré-frontal, o adolescente vai se aproximando do mundo adulto, embora de maneira não muito suave. Nessa fase, começam a se desenvolver o comportamento autorreflexivo, a autorregulação e o raciocínio, levando a uma maior consciência crítica de si e dos outros. Por isso, eles tendem a ver incongruências no mundo dos adultos. Ao contrário da criança, que tende a ser alegre, o adolescente é mais irritadiço e nega ou questiona o que vem antes dele. 
– Como o cérebro ainda está se consolidando, as oscilações de humor na adolescência são comuns, assim como o comportamento reativo. Os adolescentes começam a olhar o mundo de forma mais profunda, mas o lado emocional não está totalmente amadurecido. Daí surgem embates com os adultos e com a família. Além disso, eles são mais impulsivos, reativos e intensos. Percebem as incongruências, mas não sabem como lidar com elas.
– Outra mudança fundamental ocorre no sistema de recompensa, conjunto de estruturas no cérebro responsáveis por premiar com prazer ou bem-estar comportamentos que acabaram de se mostrar úteis ou interessantes. Isso significa que o adolescente precisa de muito mais para sentir prazer. É algo difícil de visualizar porque ocorre em nível bioquímico – no cérebro, o prazer é proporcionado pela molécula dopamina, que é um neurotransmissor. Os adolescentes possuem um terço dos receptores para dopamina. Por isso, precisam de experiências mais intensas, que estimulam mais a liberação da substância, para sentir prazer. Essa mudança, por si só, é a principal responsável pela maioria dos comportamentos típicos do adolescente, como a busca de novidades, os excessos (como ouvir música alta) e o comportamento de risco, que também gera euforia e produção de dopamina. 

(Fonte: revista Neuroeducação

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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.