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foto de unsplhash como colher vitimas de estupro

Creio (espero!) que o assunto do feriado no Brasil tenha sido o chocante caso de violência sexual no Rio de Janeiro.

Por aqui foi. Com amigos virtuais, com colegas de trabalho, com a família. Logo depois do jantar, víamos o Jornal Nacional e meus filhos falaram:

– Imagina como fica a vida dessa menina depois de toda exposição? Além do estupro que viveu, sempre vão falar disso quando se referirem a ela.

A vítima é menos lembrada do que os agressores.

Todos queremos justiça, poucos pensam no acolhimento.

Não lembro de ter visto pessoas cobrando casas de acolhida, psicólogos se oferendo para ajudar, gente reunindo roupas para a menina e seu filho, ofertas de cestas básicas e cursos profissionalizantes, uma orientação para a avó dela que nas entrevistas parecia considerar a menina um caso perdido.

Como evitar que as meninas em situação de risco social recaiam nesta vida que as leva cada vez mais para relações negativas?

Sei que nem todos os casos são assim. Mas podemos pensar nos que são e agir para reduzir estes dados tristes.

Em público as pessoas reagem genericamente, mas conversando em particular com amigas, é fácil perceber que as histórias de estupro acontecem ao nosso lado e muitas vezes com a gente. Todo mundo tem uma história próxima para contar.

Dizem que estamos vivendo uma “nova onda de estupro”: pesquisas indicam que 20% das universitárias foram estupradas em suas vidas, e 84% delas por alguém que elas conheciam.

Diante da cultura do estupro, que diz que o homem pode sim exigir sexo de uma mulher (a esposa em casa, a prostituta no hotel, a menina que deu mole na balada ou a estranha que parecia se oferecer na rua), como reagiremos como sociedade?

Num update que fizemos ontem no instagram e fanpage do blog, ecoam muitos gritos de “castração”e “pena de morte”. Será o caminho?

Honestamente, não sei.

foto de Pezibear para o texto mexeu com uma mexeu com todas

Mas vejo de um jeito positivo a chance de tirarmos este assunto da invisibilidade social. Melhor falar sobre o tema do que fingir que não acontece (dados dão conta de que a cada 11 minutos uma mulher é estuprada no Brasil) ou agir como se fosse natural e parte da vida.

Engatinhamos vergonhosamente na defesa da mulher e mais ainda das vítimas de violência sexual. Quer um exemplo? Até 2002 existia na lei brasileira a possibilidade de o estuprador não cumprir pena caso ele se casasse com sua vítima.

No papo entre as colaboradoras do blog, surgiu um viés interessante:

Não raro os estupradores vêm de uma família, tirando casos de pessoas com transtornos, são pessoas “saudáveis” o que faz pensar que precisamos sim falar do estupro e do estuprador, punir, mas precisamos falar na família, na estrutura da família, educação em casa, de como abordar isso em casa. Muita gente não vê nada de errado em “forçar” a barra, porque aprendeu isso desde cedo.

Quer um exemplo?

É comum ver pais, tios e avós jogando as crianças no colo de estranhos, dizendo “dê um beijo no tio”, “só um beijinho”. E a criança que não dá, é uma menina brava, feia, chata, ruim. A que vai no colo ganha bala, carinho, elogios.

Entendo quando falam de machismo porque somos condicionadas a agir com submissão e até sentir certa gratidão quando as pessoas são “gentis”. Mas discordo disso. Creio que vale para todos, homens e mulheres, faz parte de uma mudança necessária na nossa sociedade.

Contato físico deve ser uma coisa desejada por ambas as partes, não pode ser imposta. Nem um beijo no rosto pode ser imposto, nem um aperto de mãos. O brasileiro precisa aprender a ver os limites como um direito.

Então funciona assim:

  • Se a vítima era boazinha, facilitou.
  • Se a vítima era da pá virada, mereceu.

Simples assim.

Claro que não!

Esse tema me toca muito pessoalmente porque desde que #aos11 minha amiga do outro lado da rua foi violentava dentro de casa, na própria cama, pelo ajudante do vidraceiro que deixou a massa do vidro do quarto dela fácil para entrar. Um quarto onde eu brinquei… e onde certamente minha amiga nunca mais brincou do mesmo jeito. Ela se tornou refém do medo, das grades que lhe protegeriam, das pessoas que precisava ter à sua volta o tempo todo para se sentir segura. 

Mas minha amiga tinha estas pessoas para apoia-la. E a menina carioca? Claro que não. As crianças em risco social são muito mais vulneráveis, antes e depois da violência.

foto de voxeu crianças em situação de vulnerabilidade

Na faculdade fiz uma reportagem premiada pelo Sindicato dos Jornalistas sobre Prostituição infantil na Tríplice Fronteira. Entrevistei menores de rua que eram vítimas, foi muito duro e um grande aprendizado. Tanto que me tornei voluntaria do Movimento Nacional de Meninos e Meninas de Rua e saia de madrugada para abordá-los e tentar ajudar nas madrugadas geladas de Curitiba.

Por isso, meu olhar segue quase sempre mais a vítima (já escrevi algumas vezes sobre a necessidade de acolher a vítima) do que o agressor.

Precisamos de todos os olhares, eu sei, que bom que tem pessoas reagindo em vários sentidos.

Eu quero ouvir pessoas do bem, mulheres e homens, pensando juntos que precisamos reintegrar às vítimas à sociedade e lhes dar a chance que merecem.

Já tem gente suficiente pensando em como punir os criminosos. Tem até gente alegando que todos os seres humanos do sexo masculino são estupradores em potencial!

Dividir a sociedade entre estupradores em potencial não é o mesmo que repetir aquela ladainha machista ridícula que diz que “o pai de menina passa de consumidor a fornecedor”? Faça-me o favor!

(na reportagem de 1995, eu ouvi relatos de atrocidades tão grandes em estupros que aprendi que não precisa de pênis para isso, basta maldade no coração)

Enfim, há muitos caminhos para mudar a sociedade com a qual nos indignamos. Cada um escolhe o seu.

Se você quer pensar numa mudança com esse viés de proteção à vítima, vem comigo.

Vamos levantar o que há de legislação sobre o tema, listar os parlamentares, organiza-los conforme suas posturas públicas e projetos de lei, buscar aproximação com quem parece interessado no tema de uma forma positiva e pensar num diálogo de vários setores da sociedade (nós, cidadãos, os políticos, o judiciário, as entidades religiosas, quem vier) e começar a trabalhar também por políticas de acolhimento às vítimas que, sem dúvida, incluem ter mais rigor na aplicação das leis contra esses crimes hediondos.

Quer saber mais?

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