destaque / sustentabilidade
Mapas da Nasa mostram o El Niño de 1997 (esq.) e de 2015 (dir.). Quanto mais vermelho, mais quente a superfície do Oceano Pacífico. Os dois episódios mostram semelhanças no padrão do fenômeno (Foto: Nasa)

Mapas da Nasa mostram o El Niño de 1997 (esq.) e de 2015 (dir.). Quanto mais vermelho, mais quente a superfície do Oceano Pacífico. Os dois episódios mostram semelhanças no padrão do fenômeno (Foto: Nasa)

Engraçada a vida: há poucos dias eu estava estudando meu filho sobre El Niño e contando para ele do verão de 1997/98.

Como contei pro meu filho, no final dos anos 1990, El Niño aumentou a temperatura das águas do Pacífico em até 5 graus, trazendo variações na pressão atmosférica com mudanças bruscas na intensidade e no rumo dos ventos.

Começamos 1998 com chuva onde não era normal e seca em muitos lugares, sem contar que foi o mais quente desde o início das modernas medições, por volta do século XIX! Mudei para o Japão em fevereiro deste ano e lá ouvi falar do inverno e verão também atípicos. Dizem que os efeitos do El Niño de 1997 tenham levado à morte 23 000 pessoas e deixado 45 bilhões de dólares de prejuízo no mundo todo.

shrimpnews
Um evento comum que acontece em intervalos que variam de dois a sete anos por causa do aquecimento brusco das águas do Pacífico tropical,  às vezes este fenômeno pode ser pior, como especialistas preveem que será no verão de 2015/16!

Será que evoluímos na detecção e combate à anomalia climática desde 1997?

Infelizmente, para identificar a chegada do El Niño, ainda se usam os mesmos dois métodos do fim dos anos 90:

  • boias meteorológicas espalhadas pelo Pacífico equatorial que monitoram a temperatura de águas em até 500 metros quadrados de superfície aquática, a intensidade dos ventos e as condições atmosféricas
  • uma rede de mais de 100 satélites, quantidade pouco maior que a de 1997, afeitos a monitorar a temperatura dos oceanos, a formação de campos de vapor em áreas dos mares e a distribuição de ozônio na atmosfera

Há duas formas principais de identificar o estabelecimento de um fenômeno como o El Niño:

  • Medição da temperatura das águas superficiais do Pacífico tropical. Se a elevação passa de 0,5 grau, configura-se um El Niño. Caso supere 1,5 grau, considera-se que ele é intenso. Hoje, o aumento está em torno de 1 grau. O El Niño chegou, porém não se estabilizou, e, pelas estimativas de climatologistas, isso só deve ocorrer quando ultrapassar os 2 graus. Há quem aposte que chegará próximo dos 3 graus.
  • Índice de Oscilação do Sul (SOI). Trata-se de um número, neutro, positivo ou negativo, que mede a diferença da pressão atmosférica entre dois pontos da Terra, um na cidade australiana de Darwin e o outro no Taiti. Em situação normal, ambos têm a mesma pressão. Quando há um El Niño, cria-­se uma diferença negativa entre eles.

Se tudo isso se confirmar, El Niño deve espalhar anomalias climáticas pelo planeta, como mostra o infográfico.


“O norte do Brasil, por exemplo, pode ficar ainda mais seco, vetor para incêndios naturais em florestas. O sul deve sofrer com tempestades e inundações. “O problema é que não conseguimos prever tudo com total certeza. Um El Niño nunca é igual ao antecessor”, afirma a americana Michelle L’Heureux, meteorologista do Centro de Previsões Climáticas do Noaa. Mas existem algumas pistas para indicar a dimensão do fenômeno.”

Veja alguns indícios deste fenômeno:

  • Chove quase metade do usual no norte e no nordeste brasileiros desde março deste ano. Em consequência, o risco de incêndios em florestas e de perdas na agricultura e na pecuária nordestinas é maior, com evidente prejuízo para a oferta de energia de fontes hidrelétricas e para o abastecimento de água.
  • No sul, houve 64% de aumento na quantidade de chuvas em julho em relação ao ano anterior. Culturas típicas da temporada de verão, como soja e milho, devem se beneficiar. Haverá enchentes, porém, o que deve levar a mortes e a números exponenciais de desabrigados.
  • O El Niño, na trilha de seus estragos, mexe inapelavelmente com a economia mundial, sobretudo quando se verifica que os Estados Unidos estarão entre os países hipoteticamente mais afetados. Uma área ainda mais quente de águas do Pacífico Norte, conhecida como “a bolha” – inexistente no fenômeno extremo de 1997 -, tende a diminuir a quantidade de chuvas que rumam em direção à Costa Oeste americana. Em consequência, deve-­se intensificar a gravidade da seca no Estado da Califórnia.

Não sabemos se vamos viver novamente situações preocupantes e sofridas como as queimadas na Amazônia por conta da seca ou as chuvas devastadoras no sul, mas o fato é que essas possiblidades são reais, assim como a seca no nordeste.

E qual nosso papel?

Cobrar das autoridades que se preparem para ajudar a população, conscientizar cidadãos e, acima disso, mudar de conduta no consumo desnecessário de bens.

Vamos nessa?

el-nino-2

Leia também (em inglês): How This El Niño Is And Isn’t Like 1997.

The following two tabs change content below.
Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.

Latest posts by Sam @samegui Shiraishi (see all)


Comentários no Facebook

SEO Powered by Platinum SEO from Techblissonline Estatísticas