“Um, dois, três, somos Trigêmeas sim”

Fazia muito tempo que não líamos As Sobrinhas da Bruxa Onilda juntos aqui em casa. Adoro esta coleção em que as trigêmeas caem (literalmente) nas mais populares histórias infantis, invariavelmente enviadas para lá por sua tia Bruxa Onilda, a eterna cúmplice dos vilões mais famosos. Nunca tinha ouvido falar da autora, Roser Capdevila, mas ao descobrir que esta espanhola tem filhas trigêmeas com os nomes das protagonistas das estórias, pude fantasiar sobre sua inspiração para os livros. Nem imagino como seja ter trigêmeas em casa, sequer tenho meninas, mas ler as aventuras em que elas viram de pernas para o ar as histórias, usando uma lógica e curiosidade infantis que, bem lá no fundo, estavam sempre na nossa cabeça, é delicioso, assim como vê-las vencer o mal na figura da tia megera.

Então, para escrever sobre esta coleção que se tornou um dos meus paradigmas para a infância, revi com meus filhos Giorgio, quatro anos, e Enzo, seis anos, a coleção que temos das Sobrinhas – O Pequeno Polegar, João e Maria, Ali-Babá e Os Quarenta Ladrões, Chapeuzinho Vermelho e Branca de Neve e Os Sete Anões. Não foi difícil entrar novamente no clima de desconstrução dos mitos que o universo delas traz. Logo a gente esquece do medo das bruxas, os perigos da floresta para Polegar, seus irmãos, para João e Maria. A Chapeuzinho nos é apresentada como uma menina muito mimada e cheia de si pela fama que ganhou com a estorinha e o lobo é um senhor fora do peso e que acaba arrastado por ela pela floresta até a casa da vovózinha. E as meninas se surpreendem ao descobrir que Branca de Neve casou com e teve filhos trigêmeos, que agora brincam na casa dos sete anões, alçados à condição de ministros do reino pelo príncipe que virou rei.

Quem já teve crianças de dois a três anos ainda deve se lembrar do quanto eles gostam de ouvir repetidamente as estórias, de como nos cansam com os mesmos desenhos e CD’s. Com as sobrinhas também foi assim e, mesmo com cerca de 30 páginas, os meninos nunca cansaram destas histórias e sempre queriam “de novo” ou “mais um”. Assim nos habituamos a alternar estas versões das trigêmeas com as tradicionais (as versões originais dos clássicos), aproveitando para tratar com leveza e com exemplos palpáveis para eles, como os filhos da Branca de Neve – trigêmeos meio egoístas, que não gostam de dividir e um deles é mal-humorado. Surgiram assim de forma branda as questões éticas, a aceitação das diferenças culturais e especialmente a chegada e a presença do irmão como companheiro de aventuras, um ponto que nossa família começava a tratar com a chegada do Giorgio. Foi ótimo. E ainda é.

Além da beleza singela das ilustrações, ricas em detalhes, que desenvolvem o sentido de observação do pequeno leitor, cada livro traz um jogo que torna a leitura divertida. As crianças pequenas adoram procurar os “três ratinhos” escondidos nos cenários e sentem-se amparadas em sua curiosidade premiada, que nunca é apresentada como defeito e nem chega a ser castigada nas aventuras de Ana, Teresa e Helena.

Atualmente a série ganhou uma nova coleção intitulada “As Fantásticas Aventuras das Trigêmeas”, em que as meninas foram separadas da tia. Descobrimos a nova série na Bienal do Livro de São Paulo (onde os meninos tiraram a foto com uma Bruxa Onilda do tamanho deles), em março de 2006. Achamos exemplares de outra editora com a coleção intitulada “Contos Fantásticos das Trigêmeas” e desde então temos nos deliciado com quatro títulos: A ilha do Tesouro, Robin Hood, Os Três Porquinhos e Robinson Crusoé.

Foi bem interessante porque as meninas cresceram, esta foi a nossa sensação em relação aos desenhos e aventuras da outra coleção, e como os nossos meninos também cresceram, aumentou a identificação familiar. Isto e a exclusão do nome da bruxa (e a redução de sua importância nas tramas) foram as maiores diferenças que encontramos nos novos livros. As meninas continuam bagunçando os clássicos infantis com sua curiosidade infantil e suas soluções práticas para as agruras que os personagens passam. Mas, diferentemente do que acontecia na série anterior, desta vez alguns personagens são suprimidos e as meninas ou mesmo a tia Onilda tomam o lugar deles. É o que acontece com o famoso Sexta-feira, amigo nativo do Robinson Crusoé, personagem que a Bruxa Onilda assume para tentar sabotar as meninas e não permitir que elas saiam “vitoriosas” de mais uma aventura.

Aqui em casa o favorito tem sido Os Três Porquinhos, que o Giorgio, de 4 anos, adora. A classe dele fez uma apresentação para os pais sobre esta estorinha em que uns foram lobo, outros porquinhos e a maior parte da turma interpretou as casas caindo deliciosamente. Dá para ter uma boa idéia do estilo de Roser Capdevila com apenas esta história: o lobo quer os terrenos das casas dos porquinhos para especulação imobiliária e para enganá-los ele inventa um concurso de TV: ganha quem construir a casa em menos de 24 horas, quem não conseguir perde os terrenos. Enfim, uma versão bem atual, um pouco exigente para crianças pequenas, mas perfeita para as de segunda infância.

Neste ponto concordo com a editora, que indica a leitura para crianças de 1ª a 4ª séries. Em nossa casa a coleção se iniciou num Natal, quando o Enzo tinha três aninhos e o Giorgio era bebê, foi um presente da vovó Sônia (pedagoga e mestre em Educação Matemática) e não pensamos se a indicação etária era adequada ou não, simplesmente incluímos As Sobrinhas na nossa rotina de leituras. Foi sempre muito bom, criando interesse das crianças pelos clássicos ao mesmo tempo em que estimulava neles a coragem de discutir e rever o status quo, porque é isto que as meninas fazem o tempo todo nas estórias: elas discutem as condições impostas aos personagens e os fazem lutar por soluções melhores. E tudo isto trabalhando em equipe. Enfim, a coleção traz uma série de dicas que os pais podem aproveitar para tratar com as crianças.

Qual a história do livro? As Sobrinhas da Bruxa Onilda, da Editora Scipione, é uma série de livros em que três irmãs gêmeas idênticas e muito cheias de personalidade são transportadas, num passe de mágica, para o meio das histórias infantis clássicas. Quem as manda para o olho do furacão é sua tia Bruxa Onilda, que sempre acha que tem que ensinar alguma lição às meninas, que são irrequietas por natureza – aliás, representando muito bem o papel de crianças. Lá, conhecedoras das tramas completas, elas não deixam de tentar interferir e ajudar os heróis a derrotar os vilões, como todos nós, no fundo, sempre desejamos fazer. No final, o bem sempre vence o mal, ou seja, as meninas voltam para casa sãs e salvas, deixando a tia Bruxa muito frustrada!

Quem é Roser Capdevila? Roser Capdevila nasceu em 1939, em Barcelona, na Espanha, numa família de amantes da cultura e das artes plásticas. Desenha desde a infância e já fez estamparia em tela, pintura a óleo e aquarelas. Estudou belas-artes e participou de diversas exposições, individuais e coletivas. Desde 1980, dedica-se a escrever e ilustrar livros infantis. Ao longo de sua carreira, Roser ganhou muitos prêmios e conquistou grande projeção internacional. Suas três filhas gêmeas Teresa, Ana e Elena, nascidas em 1969, inspiraram-na a criar 14 anos mais tarde As Sobrinhas da Bruxa Onilda. Saiba mais em http://www.thetriplets.com

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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.

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